10 Anos, Divorciada

Filme denuncia situações absurdas pelas quais muitas meninas ainda passam em tribos de países islâmicos

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18 de outubro de 2015

“As mulheres trazem a vergonha” – frase proferida pelo pai de Nojoom (Reham Mohammed) que resume a cultura retrógrada e misógina que muitos países islâmicos ainda conservam. Nojoom é uma menina iemenita de família rural tradicional que foi obrigada pelo pai a se casar com apenas 10 anos de idade, tendo seu corpo e sua infância violados pelo marido que nem conhecia, um homem agressivo de 30 anos que a leva para sua tribo, e pela ignorância de costumes machistas calcados na religião, que pratica a culpabilização da vítima. A menina não entende o que está acontecendo, mas a verdade é que seu pai precisa do dinheiro de seu dote para pagar o aluguel da nova casa na capital Saana, para onde foi obrigado a se mudar com as duas esposas e os filhos, por uma questão de honra que só será revelada mais à frente ao espectador. Depois de algum tempo sofrendo violência sexual do marido e exploração da sogra em trabalhos pesados da propriedade, Nojoom foge em busca de ajuda da Justiça para pedir o divórcio.

É nesta história verdadeira, contada pela Nojoom da vida real em um livro, que se baseia o longa “10 Anos, Divorciada”, escrito e dirigido por Khadija Al-Salami, que viveu uma situação bastante parecida com a da protagonista: foi forçada pelo tio a se casar com 11 anos e também foi abusada pelo marido, mas foi devolvida à mãe solteira por desobediência. Pelo fato de Al-Salami ser a primeira mulher iemenita cineasta, o filme ganha dimensões ainda maiores. “Ana Nojoom bent alasherah wamotalagah” (no original) é um filme-denúncia das condições as quais as meninas islâmicas são submetidas até hoje pela família com a desculpa de estar seguindo os costumes e a religião, que claramente beneficia o sexo masculino em detrimento da manipulação, humilhação e restrição ao sexo feminino ao nível máximo. Al-Salami levanta uma discussão mais do que necessária no mundo contemporâneo através da história da menina Nojoom e, indiretamente, através de sua própria história de sofrimento. O momento que melhor traduz o absurdo do casamento infantil obrigatório é quando Nojoom é arrastada para o carro do marido para se casar com semblante de medo e abraçada numa boneca, da qual não desgrudou até a violação que sofreu na noite de núpcias.

As cenas do tribunal são importantíssimas para entender como os costumes e a religião são usados como argumento pelos homens para controlar a vida das mulheres, mesmo na presença de um juiz, que não consideram que esteja no direito de “se meter em suas vidas”. Todos analfabetos, com exceção dos chefes religiosos, que são os únicos a lerem o Corão nas tribos que comandam, os cidadãos pobres vivem alheios a toda e qualquer modernidade do mundo e só acham válida a lei de Allah. Para eles, é normal que a esposa sirva de empregada da família do marido aos comandos da sogra, que já esteve no mesmo lugar delas quando se casou à força, mas parece ter se esquecido. O maior contraste entre dois mundos distantes na mesma cidade encontra-se nas cenas na casa do juiz que acolhe Nojoom: a filha dele, 3 anos mais velha, consome coisas normais que meninas ocidentais de idade similar também consomem e é tratada como uma criança normal, ao contrário do que ocorre nas tribos conservadoras que reprimem a mulher desde que nascem. “10 Anos, Divorciada” é um filme biográfico, mas que serve para refletir sobre a sociedade como um todo, inclusive a ocidental, considerada super liberal, mas que parece estar regredindo cada vez mais.

 

Festival do Rio 2015 – Expectativa 2015

10 Anos, Divorciada (Ana Nojoom bent alasherah wamotalagah)

Iêmen – 2014. 96 minutos.

Direção: Khadija Al-Salami

Com: Reham Mohammed, Naziha Alansi, Rana Mohammed, Ibrahim Alashmori, Abdo Ali, Amena Hassam e Shafikha Alanisi.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4