Festa de Despedida

Uma lição de vida sem pragmatismo, tratando a velhice jovial e a juventude idosa com alegria de viver, sem lhe tirar também o direito de morrer.

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23 de setembro de 2015

Israel possui peculiaridades advindas de uma cultura que só poderia datar de milênios, vide o Antigo Testamento ou melhor, o Torá. Por isso a filmografia do país pode abordar certos temas com originalidade ímpar, mesmo que batidos. O tema da eutanásia já foi abordado magistralmente pelo canadense “Invasões Bárbaras”, e o da inevitabilidade da velhice pelo alemão Michael Haneke em “Amor”. Então por que revisitar tais questões? Porque Israel realizou a junção de ambas no agridoce “Festa de Despedida” (“Mita Tova” de Sharon Maymon, Tal Granit), eficiente drama com toques de humor negro, quase um novo “Coccoon” para as gerações atuais, porém sem ficção científica e mais profundo.

Num asilo onde convivem amigos de idade avançada em diferentes quadros de saúde, a vontade individual é tolhida pela vontade coletiva, pois se crê que em seu descanso final os idosos não devem ser atormentados. Porém esta falta de liberdade pode tornar os agridoces últimos anos em tormento, sem direito de os enfermos decidirem quando partir. Tendo seu sofrimento prolongado, principalmente nos casos sem cura, e ampliando a angústia de quem fica. Bem verdade, o luto em si tem seu lado egoísta, pois é mais sobre a perda de quem fica pra trás do que sobre o descanso e fim da dor pra quem vai. Eis que um dos amigos cria uma máquina que possibilita que o próprio paciente decida quando se despedir. E a mera repercussão psicológica e ética disso irá estremecer as amizades e o asilo.

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Há um boa construção de personagens, que se individualizam entre a emotiva mas firme; a racional do contra; o oportunista que vê como se aproveitar… Mas todos terão que se digladiar com seus opostos, e talvez até ser obrigados a mudar de ideia. Para o leitor que acha se tratar de um exagero melodramático apenas por abordar o assunto eutanásia, este crítico urge que se desafie a crer o contrário: a direção segura acompanhada de inspirada fotografia poética e momentos que sublimam a dor ora com humor, e ora com lirismo (como as belas e engraçadas cenas no carro, primeiro com os personagens cantando em uníssono, depois sendo multados por um policial), comprovam que o resultado final é uma caixinha de surpresas de sentimento ímpar. Outras cenas como a que uma das pacientes terminais desiste da máquina de assistência ao suicídio após faltar luz duas vezes, e enxergar isso como um sinal de Deus, é tanto hilário quanto enternecedor. Ou mesmo a cena em que todos os amigos do asilo fazem uma festa nus para divertir a amiga que está doente. Uma lição de vida sem pragmatismo, tratando a velhice jovial e a juventude idosa com alegria de viver, sem lhe tirar também o direito de morrer.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4