45 Anos

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04 de novembro de 2015

Guardadas as devidas proporções, há algo de “Amor” (2012), de Michael Haneke, no filme “45 Anos”, grata surpresa do cineasta Andrew Haigh. Uma sensação de vaga semelhança que provém do espaço confinado da residência ocupada por idosos ― mas não decrépitos quanto o casal de “Amor” ―, cujos comportamentos fermentam em uma tensão que enreda o espectador. Pode-se inclusive dizer que outra congruência diz respeito às atuações orgânicas: o coração pulsante das respectivas obras. Jean-Louis Trintignant e Emmanuelle Riva podem ter sido mais desafiados pela câmera indiscreta de Michael Haneke; no entanto, Tom Courtenay e Charlotte Rampling se igualam em maestria ao corresponder às expectativas de uma narrativa que, flertando com um mistério não convencional, ancora-se na aparição de um fantasma do passado. Não por acaso, Courtenay e Rampling levaram as estatuetas de melhor interpretação este ano na Berlinale.

Kate (Charlotte Rampling) e Geoff Mercer (Tom Courtenay) estão às vésperas das comemorações dos 45 anos de casamento. O conteúdo de uma carta inesperada promete abalar a estrutura psicológica do casal. Na missiva, o remetente diz que o corpo de Katya, uma antiga namorada de Geoff, foi encontrado nos Alpes Suíços depois de anos de desaparecimento. A correspondência, frágil por sua natureza e nociva pelo conteúdo, desempenha a função de “ponto de ruptura” como a avalanche no bergmaniano “Força Maior” (2014), de Ruben Östlund. O que surge a seguir, em ambos os longas, são as reações a essas intervenções desestabilizadoras. Em “45 Anos”, Kate depara-se com uma sensação, nada agradável, de enfrentamento de uma faceta desconhecida do homem com o qual escolheu viver, até que a morte os separe. Já Geoff desenvolve, ou apenas deixa aflorar, uma estranha obsessão por aquele passado que ressurge vívido, literalmente não sepultado. E nesse contexto, nada mais significativo do que o cadáver encontrado congelado, por conseguinte preservado, que Geoff deseja morbidamente observar.

A fixação de Geoff pela ex-namorada acaba deixando rastros para Kate descobrir fragmentos guardados desse passado. Quando ela resolve extrapolar as barreiras da privacidade para vasculhar as memórias do marido, “45 Anos” atinge o auge da relevância visual, apenas imagens sem o apoio de qualquer outro recurso ― é simbolismo puro, no escuro do sótão, a figura de Kate iluminada pelas fotos exibidas em um projetor, lembranças do antigo romance de Geoff. Caso tão marcante que, se Katya ainda estivesse viva, certamente não existiriam os 45 anos de união para comemorar. Por sinal, os preparativos para a festa parecem cada vez mais despropositados, e fúteis, à medida que o desconforto aumenta. As fotos armazenadas, muito reveladoras quanto aos sentimentos de Geoff, ainda contrastam com outra deficiência do casal: nota-se ali uma ausência de lembranças externas, vivas como filhos ou inanimadas como fotos dos dois, que de fato nunca incomodou, mas agora é o bastante para molestar, nem que seja um pouco. A opção do roteiro pela permanência da celebração do casamento duradouro é perfeita para os objetivos do filme. As convenções desse tipo de evento acabam funcionando como máscaras de socialização que escondem a ferida. Sendo assim, “45 Anos” acaba em festa, mas não necessariamente em felicidade.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5