5x Chico ― O Velho e sua Gente

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03 de dezembro de 2015

A série de filmes “Paris, Eu Te Amo” (2006), “Nova York, Eu Te Amo” (2008) e “Rio, Eu Te Amo” (2014), intitulada Cities of Love, popularizou o formato que consiste em um único filme composto por abordagens de diretores diferentes. O resultado disso, no caso de Cities of Love, é a reprodução sequencial de ângulos que retratam a força romântica dos três ilustres pontos turísticos. Na produção nacional “5x Chico ― O Velho e sua Gente”, tal método de fazer cinema pretende valorizar a importância do Rio São Francisco, fundamental fonte de vida que nasce em Minas Gerais, passa pela Bahia e por Pernambuco, prosseguindo seu curso para alimentar Alagoas e Sergipe. As facetas do Velho Chico são providenciadas pela subjetividade de cinco diretores ― Gustavo Spolidoro, Ana Rieper (“Vou Rifar meu Coração”, 2011), Camilo Cavalcante (“A História da Eternidade”, 2014), Eduardo Goldstein e Eduardo Nunes. O filme, que não define o fim da contribuição de um diretor para o início do segmento do outro cineasta, tem valor antropológico ao analisar, sem intrometimento, a sobrevivência das comunidades ribeirinhas do Rio São Francisco.

O principal acerto do filme vem logo no início, quando o letreiro que mostra uma citação da autoria de Guimarães Rosa (comparando o Rio São Francisco com a alma dos homens) precede a sequência que exibe toda a pujança do Velho Chico. A câmera, que passeia pela cores e texturas da paisagem aquática, dentro d’água ou na superfície, consegue captar a essência de um organismo quase humano nos mistérios deslumbrantes do rio. Uma grandeza que foge à compreensão puramente racional; por isso, as histórias contadas por dois pescadores locais, com aspectos de fábulas, parecem adequadas a essa aura enigmática tão marcante na introdução de “5x Chico”. Dito isso, é seguro afirmar que o início do documentário é a parte mais acalorada de toda a produção, enquanto o restante inclina-se mais para o lado da observação.

Grande mérito do documentário é restringir os relatos a pessoas que vivem diretamente na realidade retratada, livrando o filme da rigidez de contestações acadêmicas, típicas de especialistas. Para o espectador da cidade grande, é proveitosa a oportunidade de observar comunidades não impactadas pela intensa conexão com a tecnologia. Nesses lugares, indissociáveis mesmo são as relações diretas com a natureza. No âmbito do registro antropológico ― “5x Chico” é também primordialmente um filme de gente ―, a narrativa em determinado momento mescla o ritual religioso com a rotina da pescaria, o que de certa forma o aproxima, nem que seja de maneira bem sutil, do longa “Barravento” (1962), do ilustre baiano Glauber Rocha. Agruras da luta diária pelo sustento e alguns alívios de alegria também não ficam de fora nessa homenagem ao Velho Chico, que segue resoluto em seu percurso.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3