A Colina Escarlate

Um bombom fino para adocicar a evolução de Guillermo Del Toro

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18 de outubro de 2015

Aficcionado pelo conceito de Karma, ou seja, dos débitos contraídos ao curso da Existência como saldo do livre arbítrio de cada um, Guillermo Del Toro trouxe do México um fascínio pelos mundos onde a Morte é senhora soberana. Talvez por isso, seu dinamismo (plástico e dramatúrgico) no trato com os tempos do pretérito é perfeito, como comprova seu trabalho mais festejado – “O labirinto do Fauno”, de 2006 -, ao contrário do que se vê quando ele ensaia olhares para o futuro (vide o desarranjado “Círculo de Fogo”) ou sobre o presente (caso do natimorto “The Strain”).

Nos idos dos 1990 e início dos 2000, quando virou cult rodando “Cronos” e “A Espinha do Diabo”, era diferente, porque, nos dois casos, ele estava no seio hispânico, em casa. Mas agora ele é cidadão hollywoodiano, detentor do greencard do escapismo. E lá, na Meca do entretenimento, o passado é a matéria onde ele opera melhor o trânsito com a fabulação, convertendo fantasia em horror – e memória em trauma – em exercícios de autoralidade como “A Colina Escarlate” (“Crimson Peak”), seu melhor trabalho como cineasta, pela maturidade na construção dos planos e pelo diálogo com toda a tradição do melodrama moderno, indo para a chave do Grand Guignol (termo usado para espetáculos de terror mais naturalista, próximos da bestialidade).

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Mais que um desfile de efeitos visuais, do qual o mais luminoso é o brilho de loucura nos talentosos olhos de Jéssica Chastain, “A Colina Escarlate” é um resgate de um tipo de representação da decadência da grande burguesia (ou da nobreza emergente) que se viu em obras seminais do Cinema como “O Leopardo” (1963), de Luchino Visconti, ou “Tarde demais” (1949), de William Wyler. Essa evocação se dá na sequência do baile no qual a escritora Edith Cushing (uma Mia Wasikowska mais madura, isenta de seu mimimi habitual) aceita uma dança com um pretendente cheio de mistério: o inventor Thomas Sharpe (interpretado pelo sempre surpreendente Tom Hiddleston).

O bailado deles, apresentado nos primeiros minutos deste longa-metragem orçado em US$ 55 milhões, é um abre-alas para um dos trabalhos de direção de arte e figurino mais sofisticados vistos em Hollywood este ano, de uma beleza que grita sem ensurdecer a percepção para a organicidade da narrativa. É apenas Del Toro sendo detalhista na epiderme do filme, com adereços que agregam para a compreensão de um mundo com prazo de validade determinado.

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Rodado em Ontário, no Canadá, mas ambientado entre Nova York, nos EUA, e o interior da Inglaterra, o enredo acompanha a mudança na rotina de Edith após seu primeiro contato com Thomas, no qual ele, sempre acompanhado da irmã Lucille (um papel talhado para a bela Jessica), mostra ser um sujeito apaixonante. Ele envolve a jovem escriba com suas doçuras, para o infortúnio do Dr. Alan McMichael (Charlie Hunnam), oculista apaixonado pela moça desde jovem. O pai de Edith, Carter (Jim Beaver, careteiro), desaprova a figura de Thomas e chega a suborná-lo para que este quebre o coração de sua filha. Mas quando Carter é brutalmente assassinado (numa cena digna da maestria de Del Toro em relação aos códigos do gênero), o inventor faz de seu abraço um abrigo para a órfã, que, desde criança, sonha com fantasmas.

É nesse seu contato com os seres do Além que ela vai perceber o que existe de mais perverso no coração de Thomas, sobretudo em sua relação com Lucille, dando ao longa um tom detetivesco, com viradas pautadas por um enfoque investigativo na protagonista e também em McMichael, que se torna uma espécie de dinâmico de Edith, colaborando – como bom oftalmologista que é – para ela curar sua miopia de amor. Porém, o amor neste Del Toro dos bons escreve-se com “A” e, mesmo entre traições e decepções, o diretor não deixa o foco na porção (ultrar)romântica de seu filme se dissipar. Há algo de belo a florescer no pântano que um dia foi a alma de Thomas. Algo que a possessividade de Lucille não poderá enlamear. E é agarrado a esta centelha de esperança na redenção humana que Del Toro vai esculpir as entranhas de “A Colina Escarlate”, dando-lhe órgãos vivos.

Suspense, mel e medo se misturam num enredo capaz de juntar incesto, corrupção e reflexão sobre as náuseas da Modernidade numa conversa com o histórico do folhetim do século XIX (sobretudo com um cânone da literatura: Henry James, no livro “As Asas da Pomba”), sem jamais perder a mão do sobrenatural. Estamos diante de um filme de fantasmas: a promessa foi essa. E Del Toro vai cumpri-la, com ritmo, sangue e uma revisão do gótico, auxiliado pela fotografia de Dan Laustsen (de “O Pacto dos Lobos”). Para o diretor, é um atestado de maturidade. Para o público, um bombom  fino.

Festival do Rio 2015 – Midnight Movies

A Colina Escarlate (Crimson Peak)

EUA, 2015. 119 min.

De Guillermo Del Toro

Com: Mia Wasikowska, Jessica Chastain, Tom Hiddleston, Charlie Hunnam

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5