A Esperança é a Última que Morre

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03 de setembro de 2015

No filme dirigido por Calvito Leal, “A Esperança é a Última que Morre”, a criatividade do argumento, que mescla os bastidores do jornalismo predatório com a existência forjada de um serial killer, é o diferencial logo notado. Na trama, na pacata cidade de Nova Brasília, a desajeitada Hortência (Dani Calabresa) é uma repórter farta de matérias sem a menor relevância social. Para rivalizar com a mocinha, temos a personagem Vanessa (Katiuscia Canoro), a protegida do chefe egocêntrico (Augusto Madeira) que também cumpre o papel de âncora no telejornal local. Quando a idade “avançada” de Vivian (Adriana Garambone) abre uma vaga na bancada do programa, Hortência e Vanessa disputarão o cargo com unhas, dentes e trapaças. Sem a mesma perspicácia cômica dos filmes americanos estrelados por Will Ferrell, “O Âncora: A Lenda de Ron Burgundy” (2004) e “Tudo Por um Furo” (2013), ambos de Adam Mckay, “A Esperança é a Última que Morre” despeja no ralo uma boa oportunidade de tirar sarro de atitudes recorrentes no cenário jornalístico, como as habituais puxadas de tapete entre os “colegas” de redação e o fácil descarte de profissionais experientes.

Pavimentando seu caminho para o sucesso, Hortência recebe a ajuda de dois esquisitões que trabalham no Instituto Médico Legal da região: Ramon (Rodrigo Sant’Anna) e Eric (Danton Mello). São eles os que mais percebem a tranquilidade de Nova Brasília: os poucos que partem desta para uma melhor são vítimas de morte natural, nenhum homicídio, latrocínio ou tiroteio. Quando a reportagem sobre a segurança exemplar de Nova Brasília é arrebatada das mãos de Hortência ― Vanessa é a culpada no cartório ―, a repórter injustiçada precisa fiar-se em outra espetacular pauta para fazer jus à “ancoragem” do jornal. Partidários da causa da moça, Eric e Ramon decidem inventar ataques de um assassino em série. Plano viável, mas nada ético, graças ao acesso aos corpos durante o serviço funerário. Desta forma, eles montam um padrão para o criminoso de mentirinha ― tal qual o psicopata de “Seven: Os Sete Crimes Capitais” (1995) que agia de acordo com os pecados capitais, o assassino de “A Esperança é a Última que Morre” baseia-se em provérbios para “ceifar” suas vítimas. Desta forma, nasce o “Assassino dos Provérbios”, o mais novo fruto do sensacionalismo barato no noticiário.

Sem conseguir extrair entretenimento de qualidade de um roteiro promissor, Calvito Leal dirige um filme de condução capenga, que constantemente perde boas oportunidades satíricas. O desempenho de Dani Calabresa, protagonista do longa, contribui para a queda ladeira abaixo. Nem engraçada, tampouco convincente, sua participação no filme parece tolhida por insegurança e desconforto com a ficção. Rodrigo Sant’Anna, menos caricato que de costume, e Danton Mello, no papel de bobalhão apaixonado, até demonstram entrosamento como dupla, mas nada que desperte interesse considerável no oceano de irregularidades. Arruinada pela displicência da produção, a boa ideia inicial virou poeira, dissipando-se no ar. Relembrando o modus operandi do “Assassino dos Provérbios”, agora não adianta chorar pelo leite derramado.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 2