A Lição

A Força de revirar o estômago, lhe fazer sofrer junto, a ponto de querer levantar uma bandeira e lutar por alguma causa.

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21 de julho de 2015

a-liçãoAlguns filmes têm a força de revirar o estômago, lhe fazer sofrer junto até sair da cadeira como se houvesse levado uma surra. A ponto de querer levantar uma bandeira e lutar por alguma causa. “A Lição”, da surpreendente estreia em longas metragens de Kristina Grozeva e Petar Valchanov, faz exatamente isso. E sem precisar de nenhuma cena gratuita para chocar. A violência aqui não é física, e sim moral. Uma que todos poderíamos passar no cotidiano quando não recebemos o pagamento devido de cliente enrolador, ao sofrer os juros exorbitantes de um empréstimo bancário, ou mesmo ter sua casa leiloada. Ou seja, o Ministério da Saúde adverte: crises de ansiedade podem ocorrer ao espectador durante a projeção…

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Todo o calvário ocorre a uma professora colegial na cultura já restritiva de uma Europa barroca e arcaica no interior da Bulgária, em meio à crise europeia, que, após a tentativa de ensinar uma lição a seus alunos para descobrir quem está roubando as mochilas no recreio, descobre que será a próxima a ser roubada, mas pela vida, para ajudar a balizar os extremos sociais. Roubada por um marido inútil, empregadores falidos e até por um pai rico de cuja moral a professora discordaria a tal ponto de rejeitar tudo em nome da honra de sua falecida mãe. A trama ganha muito metaforicamente com a idealização de uma moral perfeita na figura desta mãe que aparece em fotos, quadros e hábitos pelo filme todo, projetada na psique de sua filha. Um recato que, por analogia, as circunstâncias tormentosas econômicas não compatibilizam frente à audácia necessária para não sufocar na crise.

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Na verdade, é uma surpresa que um filme que prenunciava não sair de ‘entre os muros da escola’ para potencializar uma lição de moral acabe gerando ‘a onda’ necessária para dimensionalizar o ‘nós’ e o ‘eu’. Sim, esta última sentença fez referência a três outros filmes em escolas para situar que muito do que acontece dentro da Instituição é reflexo da casa dos alunos e dos próprios professores. É uma responsabilidade cabal educar as futuras gerações para mudarem o mundo. Se nada nunca mudar, como o presente poderá se desprender do passado para criar um amanhã? Até onde mudar ou ser obrigado a mudar? E este foi o risco que os diretores assumiram ao focar na problemática da professora, principalmente fora de seu trabalho, lembrando que aquela representante do ensino fundamental também é humana, dominando os ângulos de câmera numa atuação impressionante e contida de Margita Gosheva, cujas mínimas movimentações de olhares e gestos dizem muito. Uma das melhores atuações femininas do ano, mesmo que em detrimento do resto do elenco meio esquecível. Além de algumas das cenas mais marcantes desde já: há de exemplo a do pagamento da diferença da hipoteca no valor de míseros centavos, que podem custar sua própria casa, e que se estendem em angústia até o último segundo para o espectador, na dúvida se irá se salvar ou não, ao ponto de depender da caridade de todos ao redor e até de ‘roubar’ moedas de uma fonte na pracinha, bem na hora de fechar o banco.

Desafio o espectador a conseguir respirar durante toda esta sequência.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4