A Menina dos Campos de Arroz

Desbunde visual numa viagem turístico-cultural sem sair do cinema

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05 de junho de 2015

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“A Menina dos Campos de Arroz” de Xiaoling Zhu talvez seja o filme de fotografia bucólica mais bela que pisou este ano nos cinemas. Para acompanhar tal colírio visual naturalístico, a intenção do filme viaja entre a contemplação voyerista de uma cultura estrangeira talvez desconhecida do espectador que jamais tenha viajado para o interior do Brasil a testemunhar o labor manual nos usos e costumes do plantio sem máquinas. Não, não se trata de um documentário, pois tudo se passa pelo olhar da menina do título que estuda muito para ter a escolha de sair daquela prisão milenar e ser uma escritora.

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Devido a isso, o filme é todo pontuado pela narrativa do diário da protagonista, menina encantadora bem escalada esteticamente junto à fotografia, mas talvez não tão densa quanto o roteiro poderia alcançar….Esta é uma das principais dicotomias de estranhamento do filme, seja pro bem ou pro mal: a grandiloqüência das tomadas aéreas de paisagens atordoantes bate de frente com a naturalidade exagerada, quase documental com que seu diretor insiste em dirigir o elenco praticamente de não-atores. Com o tempo, o espectador se acostuma, mas engajaria bem mais se houvesse um pouco mais de intenção ou camadas nas personagens que simplesmente acordam e reagem ao ambiente ao seu redor, até porque a trilha sonora também louva a intenção de suprir este envolvimento, não fosse às vezes desperdiçar ou exagerar algumas boas ideias, como a de inserir vocal da mãe ou da filha entoando cantigas no meio da orquestração ora rural ora urbana, na dialética da evolução. Esta reflexão não é em vão, pois, em tempos de alta tecnologia, já é antropologicamente questionador o próprio trabalho manual de se imaginar o plantio de cada muda para gerar mínimos grãos de arroz até a quantidade necessária para encher a mesa de toda uma população (assim como no Brasil, o arroz também é muito consumido na China). Mas por que aquela menina teria mais destaque para guiar a história do que tantos outros ancestrais que já passaram por essa estagnação social?

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É nela que se depositou o conflito de gerações necessário a transcender. A grande surpresa é que a luta dela e de sua família cotidiana e diária para sustentar os estudos e a própria casa acaba sendo suplantada não pela evolução da garota, mas pelo destino em si, que reserva ao final da projeção uma reviravolta a demonstrar que independente da intenção de mudar, a força da natureza às vezes é maior do que tudo e força o ser humano a se adaptar ou fenecer. Até as coisas mais milenares um dia acabam, numa afinidade temática com um dos melhores filmes do ano passado “A Ilha dos Milharais” da Geórgia, mas sem a multicomplexidade moral deste. E por esta derradeira catarse muito mais do público do que da trama é que a experiência reflexiva minimalista acaba valendo a sessão.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3