A Travessia

Longa de Robert Zemeckis mostra a façanha do francês Philippe Petit ao cruzar as Torres Gêmeas nos anos 70 na corda bamba

por

08 de outubro de 2015

Muito antes do fatídico ataque do 11 de setembro em 2001, as Torres Gêmeas do World Trade Center foram palco de uma apresentação artística arriscada e inusitada. O medo de altura é uma das fobias mais comuns do mundo, mas não para Philippe Petit, que, em 1974, andou sob uma corda de aço amarrada entre as duas torres com a distância de 42,5 metros, sem cabos de segurança, a uma altura de mais de 400 metros, correspondente ao 110º andar. Foram seis anos de treinamento e planejamento para a realização de sua proeza ilegal e memorável, que aconteceu antes mesmo do WTC ser oficialmente inaugurado.

Baseado no livro “To Reach the Clouds”, escrito pelo próprio Petit, “A Travessia” é o segundo longa-metragem a abordar o feito, sendo o vencedor do Oscar de Melhor Documentário 2009, “O Equilibrista”, o primeiro. Com roteiro (em parceria com Christopher Browne) e direção de Robert Zemeckis (“Forrest Gump – O Contador de Histórias” e trilogia “De Volta Para o Futuro”), o filme conta com Joseph Gordon-Levitt de lentes azuis, corte de cabelo estranho e um sotaque francês quase perfeito, excelente no papel de Philippe Petit, que narra a história do topo da Estátua da Liberdade num tom ao mesmo tempo didático e de fábula, com tamanho preciosismo que parece estar lendo um livro em voz alta. Zemeckis, que inovou na utilização do 3D no cinema em 2007 com “A Lenda de Beowulf”, faz uso desta linguagem de maneira excepcional em “The Walk” (no original) para imergir o público ainda mais na tensão da travessia de 45 minutos de Petit, cujos nervos pareciam ser feitos de um aço mais forte que o da corda sob a qual caminhou oito vezes. Aliada aos incríveis efeitos empregados, a câmera de Zemeckis torna-se tão anarquista e subversiva, nas palavras de Petit, quanto os artistas ao proporcionar requintados e prolongados instantes de agonia ao espectador.

Dividido em três partes – origem e aprendizado, estudo e planejamento, e execução –, o longa ganha ares de filmes de espionagem à la “Onze Homens e um Segredo” no segundo ato, quando Petit, tomado pelo espírito de Danny Ocean, começa a recrutar cúmplices para realizar seu sonho. “A Travessia” é sobre um francês que faz história em solo estadunidense, então nada mais justo que um diretor de igual nacionalidade realizá-lo. A consequência é um ótimo equilíbrio entre biografia e homenagem, em que Petit e as Torres Gêmeas encontram-se em perfeita simbiose na tela, sem em nenhum momento se ofuscarem.

Festival do Rio 2015 – Panorama do Cinema Mundial

A Travessia (The Walk)

EUA – 2015. 124 minutos.

Direção: Robert Zemeckis

Com: Joseph Gordon-Levitt, Ben Kingsley, Charlotte Le Bon, Clément Sibony e James Badge Dale.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4
  • Lucas Albuquerque

    Vou começar pelo final, a nota: dou 7,5. Tiro pontos pela linearidade dos personagens secundários (e até do protagonista) e pelo primeiro arco não acompanhar o ritmo do segundo. Mas em linhas gerais é uma ótima pedida, principalmente por não ser mais do mesmo. Critica-se muito Hollywood pela falta de criatividade, esse não é um pecado aqui.
    Sobre a narração: esse artifício em geral estraga bastante as cenas, já que em alguns casos ele narra o que está acontecendo ou o que vai acontecer. Meio que duvidando da inteligência do espectador (não abrindo espaço para quem está vendo sentir as cenas). Em alguns raros momentos, um mais no começo e outro mais no final, funciona até razoavelmente bem.
    No primeiro arco: tem uma cena simples, porém bem feita de como ele aprendeu a usar a corda bamba . A cena do risco, onde estamos no ponto de vista do papel, é outro momento notável. Mas em geral o começo do filme é meio atrapalhado com alguns problemas que poderiam ser trabalhados de forma simples. O humor não é prioridade aqui, mas tem alguns alívios cômicos bem inseridos. Contudo, em muitos outros momentos é fácil adivinhar a piada, soando um pouco forçado (parece que está aqui só para amenizar o que está por vir depois). Os personagens são jogados na trama e mal trabalhados, são lineares e sem desenvolvimento.
    A virada ocorre mesmo no arco final. O suspense aqui é qualquer coisa de sensacional. Apesar do protagonista cometer um crime, em momento algum vamos contra ele. Desenvolvemos um sentimento quase paternal…. dá vontade de gritar: “saia daí de cima, menino.. um mês de castigo sem poder subir na cordinha”. A escolha dos movimentos das câmeras foi bem acertada. O visual e a trilha também impressionam em diversos momentos. A vertigem causada faz com que os mais sensíveis possam se sentir mal com a altura (eu fui um deles). Destaque para a computação gráfica, belo exemplo de tecnologia usada a favor. Se a primeira parte tivesse mais fôlego o filme seria uma obra-prima.
    A Travessia é um filme médio para bom, com um índice elevado de entretenimento. Você compra fácil a ideia, talvez ajudada pela grande imersão. O 3D vale demais (tem, pelo menos, duas cenas que você dá um pulo pra trás na cadeira. Além do efeito de profundidade estar muito presente). É um dos melhores, talvez o melhor, que eu já vi com essa tecnologia (não vi avatar em 3D). Obrigatório ver legendado (o filme brinca com os sotaques e no dublado pode ficar artificial). Há uma referência ao 11 de setembro extremamente sutil e bela. Imagino que não seja filme para muitos oscares (talvez efeitos visuais seja indicado e até ganhe e pode ser que figure na lista de melhor filme devido a uma questão sentimental. Melhor ator acho que será, tal como 2015, um ano muito concorrido então poucas chances aqui).