Adeus à Linguagem

Ginástica para os olhos em 3D de Godard pode até curar vista cansada

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05 de agosto de 2015

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Jean-Luc Godard é daqueles cineastas que virou uma instituição. Além de revolucionar o cinema com o movimento Nouvelle Vague ao lado de amigos como François Truffaut na década de 70, com filmes como “Acossado”, “O Desprezo” e “Viver a Vida”, até os dias de hoje ainda tenta mostrar ao mundo que há mais de uma forma de se fazer cinema do que ‘início meio e fim’ com trilha sonora, desenvolvimento e desfecho de personagens redondinhos. Godard praticamente sacramentou a desfragmentação de tudo isso. Ele quebrou as narrativas cronologicamente tradicionais, picotou trilha e efeitos sonoros, e priorizou o tema como protagonista do filme sobre qualquer personagem. E o tema deste o título já diz: “Adeus à Linguagem”. Imagine-se a desfragmentação de se abandonar a linguagem. Ainda mais se esta pegar carona no modismo contemporâneo nos cinemas que urge por novidades sempre: o 3D.

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Porém…, Godard é Godard. Se ele pegou o 3D, é para desmistificar, ousar, fazer o que ninguém fez. E começa pelos múltiplos sentidos do título, que o próprio filme explora o tempo todo, usando até o 3D. ‘Adeus à Linguagem’ se torna ‘A Deus, a linguagem’. Ou seja, a linguagem é imprescindível? O que é linguagem? Se qualquer coisa puder caber nesta categoria independente do padrão de expectativa do que a palavra quer dizer, qualquer coisa pode ser ‘linguagem’. E se qualquer coisa pode ser, talvez não seja um demérito, e sim um elogio à criação e a Deus. Dito isso, pode ter ficado confuso para o leitor. Não fique. Segue apenas um casal de amantes fugindo do marido que está sendo traído, e paralelamente a câmera também segue um cachorro perambulando por uma floresta. Só isso. O cachorro tem várias explicações durante a narrativa, inclusive em analogia ao casal, como seres errantes na natureza seguindo instintos básicos. A história não precisa ter início, meio e fim. É uma aventura belíssima para os olhos. Amplificada pelo 3D que realça o tema da linguagem. O título salta da tela mais de uma vez, bem como a legenda, que foi feita especialmente para a distribuição dos filmes fora de países de língua francesa. Geralmente a legenda nos filmes genéricos com três dimensões é a única coisa que salta de verdade na frente da imagem, contudo Godard fez questão de pedir que as legendas fossem inseridas por trás das imagens que saltam, ou mesmo apenas no lado inverso da tela de onde o objeto salte. Por exemplo, se algo tridimensionaliza no lado esquerdo, a legenda fica contida apenas no extremo oposto.

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Descrevendo agora unicamente a revolução de linguagem do filme, ela acontece não necessariamente com a narrativa, pois Godard já vem desfragmentando a forma de contar suas histórias há tempos, principalmente nos últimos filmes como “Nossa Música” e “Filme Socialismo”, até de forma mais refinada na proposta do que em “Adeus à Linguagem”. O que ganha aqui status de obra-prima é a piada que ele faz com a indústria do cinema e com sua própria carreira ao usar sua cartilha para se (des)encaixar na febre do 3D, fazendo de gato e sapato da técnica e de seu público. Ainda mais porque o circuito de salas de exibição costuma ser muito óbvio, e projeções em 3D costumam ser reservadas para o próximo arrasa-quarteirão da semana, e não para um filme de arte super experimental. Eis que surge um Godard incômodo, irreverente, talvez a decepcionar os espectadores que esperarem por um pipocão. O importante é fazer algo novo. E o inovador aqui é que o olhar em si do espectador importa para contar a história, e o esforço de acompanhar seu 3D faz parte da narrativa. Ora ele tridimensionaliza algo aparentemente irrelevante para a história, enquanto a estrutura narrativa normal corre do outro lado, como se forçasse o público a resistir olhar para o 3D. Noutras vezes ele sobrepõe duas imagens, dois lados diferentes, e o espectador deve escolher qual lado seguir, fechando ou o olho esquerdo ou o direito, senão tudo que verá são amontoados de pessoas. E ainda é necessário se ficar vesgo às vezes para a imagem central entrar no foco. Até o corpo feminino e masculino completamente nus ele ousa dar relevos que chegam à plateia. Uma verdadeira ginástica para os olhos que cura até vista cansada. Tudo para abandonar o que temos por linguagem tradicional, pois a compreensão da trama se dá de uma forma ou de outra. O amor é a linguagem universal. O amor de um homem e uma mulher. O amor pela natureza. O amor pelo cinema. Touché.

Aviso: Não vejam sem ser 3D. Perde todo o sentido.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4
  • Vera Maria

    Já ia ver em exibição normal, temendo ficar meio cega ou torta após o filme, mas aí cheguei no Aviso – vou no 3D e marco oculista ;)) Sua crítica entusiástica anima qualquer espectador a entrar com vontade na proposta ‘difícil’ de Godard. Vamos lá, então.