A arquitetura da decadência pelas frestas da “Casa grande”

Filme é a aposta para levar o Redentor 2014

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07 de outubro de 2014

Numa direção impecável, o longa de Fellipe Gamarano Barbosa se impõe como o favorito do Festival do Rio 2014

Casa Grande 13

Chega ao fim nesta quarta-feira mais uma edição do Festival do Rio, coroada com a exibição de “Trash”, de Stephen Daldry, e com a premiação da Première Brasil. Numa maratona cinematográfica combalida pela ausência imperdoável do Cine Odeon, na Cinelândia, e por uma indisfarçável carência de convidados gringos de peso, percebe-se uma Première Brasil de altos (“Prometo um dia deixar essa cidade”, “Os fins e os meios”) e baixos (“Obra”, “Sangue azul”), no qual diretores mais jovens e ainda pouco conhecidos do público são maioria. Na seleção de ficções deste ano, um longa-metragem de DNA carioca, mas de alma universal, se destaca como um sofro de qualidade indiscutível: “Casa grande”, de Fellipe Gamarano Barbosa. “Favorito!” é o termo mais recorrente a ser aplicado ao projeto, produzido por Iafa Britz (“Minha mãe é uma peça”), mas sem qualquer ranço de comédia-pipoca. Depois dele, fala-se (com merecimento) de “Love Film Festival”, de Manuela Dias, cujo roteiro é primoroso, seguido de longe por “Os fins e os meios”, de Murilo Salles, thriller político sobre marketing eleitoral e corrupção, com uma atuação memorável de Cíntia Rosa.   

 

Mas nada arrebatou tanto o evento até agora quanto “Casa Grande”. Um som ao redor ecoado desde o Festival de Paulínia, em julho, antecipava que seu realizador, Fellipe Gamarano Barbosa (de “Laura”), traria um filme no mínimo desconcertante para a competição pelo troféu Redentor. Lá em Paulínia, o longa dele teve um êxito popular indiscutível e arrebatou o Prêmio do Júri e troféus para seu roteiro e para os atores coadjuvantes Marcello Novaes e Clarissa Pinheiro. Antes de aportar no Lagoon, complexo de salas na Lagoa que passou a  servir de centro nervoso para a Première, o filme de Barbosa já havia percorrido lugares de peso cinéfilo como Roterdã (Holanda), Sydney (Austrália), Nova York (EUA) e Toulouse (França), onde ganhou três prêmios. Mas a última sexta-feira, 3 de outubro, foi a data de sua estreia carioca e, nela, Barbosa reinou soberano. É um filme com discurso e forma, com boa lapidação e verve política inflamada, ideal para uma temporada de eleição, com segundo turno marcado para o dia 26. 

 

Com base em elementos autobiográficos, “Casa grande” alinha-se com a tradição das narrativas geracionais sobre maturidade, construindo (com metonímia, do tipo a parte pelo todo) uma espécie de crônica de uma certa juventude que adolesceu em meio à instabilidade do Plano Real e a falência da alta classe média do bairro do Itanhangá, na Zona Oeste-RJ. Apesar de seu foco estar em um só guri, Jean (Thales Cavalcanti, “a” revelação do Festival do Rio, em 2014), esse rapaz é um mosaico de outros muitos garotos de 17 e poucos anos, em tempo de alistamento e em tempo de vestibular, que tenta domar os fantasmas hormonais da idade em meio às ruínas institucionais do país. Jean cresce emparedado pelo zelo desbocado de seu pai, o economista Hugo (Marcello Naves, numa atuação a ser aplaudida a cada fala), e pela superproteção de sua mãe, Sônia uma professora de Francês. Esta é vivida pela afrodisíaca atriz Suzana Pires com uma carga dramática intensa (mas equilibrada) que ela traz de experiências pregressas com Barbosa, em curtas como “Beijo de sal” (2007).

Sob o véu do amor familiar, ao lado de uma irmã caçula de quem desdenha, Jean tenta conter a erupção vulcânica de seus desejos. Primeiro, o desejo de levar uma menina para cama. Desejo este que ele tenta sublimar ao esfregar creme nas coxas de sua empregada boazuda, Rita (Clarissa Pinheiro, um açaí humano de comicidade e sensualidade explosivas). Em segundo lugar, vem o desejo de desbravar o Rio sozinho. Ele quer sair pela cidade sem o motorista que lhe serve de escudeiro e tutor. Mas, conforme a narrativa avança, esses desejos vão se realizar. Mas a realização não se dá por generosidade da vida, mas sim porque o castelo de aparências onde Jean vive entra em fase de desmanche financeira. A solidez da família tenta resistir à desaparição gradual de um mundo de riqueza mediada pelos jogos de Hugo na Bolsa de Valores, a partir de seu desligamento do banco onde trabalhava. O dinheiro se vai. E a paz vai junto. E Hugo é pego nesse toró sem guarda-chuva.

Calçada por uma reflexão dolorosa sobre desapego, a trama de “Casa grande” é si é provocativa, mas é sua forma o que melhor arrebata. Na sequência de abertura, a câmera olha para o mundo da elite de cima para baixo, com a mesma arrogância que, segundo o senso comum do cinema nacional, as classes abastadas teriam. Mas, aos poucos, entre movimentos sinuosos, num vai e vem da lente, a câmera abre mão do preconceito e encara os ricos (em processo de falência) de igual para igual. Ele encara seus personagens olho no olho, sem gerar sensos prévios apressados. Pelo menos um dos muitos dramas de Jean é igual ao drama de qualquer jovem de qualquer Brasil: o drama de não saber como lidar com seus buracos e com os monolitos da autoridade paterna e materna.

Num exercício sóbrio, que lembra “A primeira noite de tranquilidade” (1972), de Valerio Zurlini, Barbosa escava um outro Rio, para além da Zona Sul maravilha ou das periferias da cosmética da fome, fazendo de Marcello Novaes seu Alain Delon. Um Alain Delon que traduz nas palavras sujas e no franzir da testa a bigorna pesada da derrota social. Vale destaque para o valor dado pelo diretor aos coadjuvantes, como Sandro Rocha (o vilão de “Tropa de elite 2”), sempre hábil para roubar cenas, e Lucélia Santos. Resta agora saber o que o júri vai pensar do filme.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5