As Mil e Uma Noites Vol.1 – O Inquieto

A Ficção como locutora perfeita para a incredulidade da realidade atual

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04 de dezembro de 2015

“As Mil e Uma Noites Vol.1 – O Inquieto” é uma daquelas curiosidades cinematográficas difíceis de aparecer, porém que marcam profundamente quando ocorrem. A História original todos ao menos já ouviram falar sobre: a personagem Sherazade, filha do grã-vizir, casa com Sultão famoso por matar suas esposas depois da noite de núpcias, e para sobreviver e impedir que outras mulheres pereçam sob esta maldita sina, começa a contar mil contos que jamais terminam, para enfeitiçar o marido a querer sempre mais a cada noite. Nestes relatos se incluem famosos personagens como Ali Babá e os 40 Ladrões e Aladim e a Lâmpada Maravilhosa. Já no presente filme, o cineasta português Miguel Gomes, pensativo sobre toda a crise mundial e como atingiu Portugal em cheio, causando desempregos e falência social, incluiu a si mesmo e suas indagações num filme sobre Portugal atual, mas transpondo-o para o ponto de vista de uma fictícia Sherazade, onde vão ganhando a tela inúmeros casos reais da crise através de seus contos.

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Miguel se torna personagem do próprio filme, o tal “Inquieto” do subtítulo, que numa crise de criatividade, foge das filmagens, e seu filme acaba assumindo o controle, o sonho, as aspirações, permitindo que a ficção seja a locutora perfeita para a incredulidade da realidade atual. Assim como no livro homônimo, bastante volumoso, Gomes também viu a necessidade de se estender numa trilogia, onde explica sua crise e gênese da entrega da narrativa à Sherazade na primeira obra, já relatando alguns contos impagáveis como o dos investidores americanos brochas, e o dos desempregados nadadores. Com fotografia que dá vida a este difícil misto de ficção e realidade, ora sóbrio ora fantástico, as cores variam entre esmaecidas ou pulsantes, de acordo com a verdade ou a mentira.

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As atuações também são ponto alto, uma vez que em inúmeros momentos percebe-se claramente o afinco com que Gomes procurou relatos reais de pessoas sofrendo todas as mazelas que aparecem nos jornais do mundo, e o filme ganha ares bem difundidos de documentário. Por mais que a fantasia às vezes possa roubar ligeiramente a atenção, ou perder um pouco do equilíbrio desta delicada junção narrativa, advém sempre do tom mais documental os maiores carismas cênicos. Algo como o saudoso mestre nacional Eduardo Coutinho conseguia obter de seus documentários às vezes quase ficcionais ou vice versa. Obra imperdível de criatividade, com um dos inícios de projeção mais original dos últimos tempos, com a mistura do relato do fechamento de um importante porto, a deixar centenas de desempregados, e o de Miguel Gomes a fugir do filme que estava filmando, além de uma terceira história sobre migração e morte de um tipo de abelhas – porém o faz com uma narração em off trocada, inserindo a explicação de cada relato nas imagens ‘erradas’, demonstrando ao espectador como tudo pode estar tão aleatoriamente interligado por ‘efeito borboleta’.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5