Batguano

Quebrando arquétipos da misoginia de Batman em paródia tupiniquim

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17 de abril de 2015

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Algumas vezes, arquétipos da cultura pop são tão duradouros que se engendram no senso comum e podem adquirir novas camadas com o passar do tempo. Bons exemplos são termos de mitologia nerd que, mesmo para quem nunca leu um quadrinho ou qualquer adaptação de HQ, não soa estranho ouvir palavras como ‘kryptonita’ ou ‘verde de raiva’ no dia-a-dia. Outras minúcias viram controversas e norteadoras, como a dupla identidade do Superman, usada até em filmes que não tenham nada a ver com ele, como no imortalizado diálogo de “Kill Bill Vol. II”, do sagaz referenciador Quentin Tarantino. Pois o outro herói tão ou mais conhecido do que o Super, o Batman, acaba de ganhar uma adaptação para os cinemas brasileiros, usando de seus arquétipos para brincar com o conhecimento dos entendedores e desmistificar inclusive preconceitos sociais… Sim, “Batguano”, de Tavinho Teixeira, utiliza algumas das maiores polêmicas por trás do manto do Homem-Morcego para realizar a mordaz crítica em inovador e raro formato de ficção tupiniquim para muito além de entendedores, mas onde estes terão prazeres extras.
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Para começar, ele decodifica um dos arquétipos mais populares: a misoginia de Batman. O porquê ele (quase) sempre escolhe Robins homens, jovens garotos que precisam ser guiados por figura paterna de autoridade inquestionável. Não é de agora que de quadrinistas a pensadores intelectuais se debruçam sobre a possível homossexualidade velada do herói. E mais do que isso, demonstrando profunda afetuosidade ao personagem, e não escárnio puro em sua dedicada paródia, escolhe homenagear duas das maiores fases no imaginário coletivo: A série para a TV dos anos 60 onde o ator Adam West foi imortalizado sob a capa preta, marcando um retrato quase cômico com direito a todos os símbolos da época como o batfone vermelho, o batcarro e etc; E, inversamente proporcional, a fase mais obscura escrita por Frank Miller, denominada ‘Cavaleiro das Trevas’, onde o herói se vê velho e ultrapassado, tentando recuperar a glória antiga. Mais do que isso, é em ‘Cavaleiro das Trevas’ onde boa parte dos arquétipos que o imortalizariam foram pavimentados, como o tom psicótico com qual persegue seus inimigos quase comparando-se a eles, obsessivamente, a ponto de a mídia o taxar de um mero vigilante na ilegalidade não melhor do que os criminosos que caça. Ou seja: Batman seria uma doença. Eis que Tavinho Teixeira genialmente faz uma analogia com o termo “doença” e argumenta em seu filme “Batguano” que uma doença futurista gerada a partir do quê?, sim, das fezes de morcego, começaram a dizimar a população, e os sobreviventes tiveram de voltar para os campos e a viver de agricultura, de voltar às raízes. Ou seja: a desconstrução social, pois se o Homem-Morcego significava a epítome da evolução da organização de um Estado Democrático, a tal ponto que qualquer um tem a liberdade de virar um herói ou vilão até que alguém precise surgir para coibir esta mesma liberdade desenfreada…, eis que se tudo isso colapsa e regressa a um estado primário, primitivo, não há mais razão para um Batman. Para herói nenhum na verdade. Pois a própria humanidade se tornou vilã do mundo, onde a evolução encontrou um garrote e o mundo contra-atacou tentando dizimar o câncer humano.
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Tavinho não para por aí. Afinal, pois se um beijo homossexual entre duas senhoras distintas e de idade na novela das 8 da notória rede Globo pode incomodar tanto a ponto de uma emissora ser obrigada a mudar radicalmente seu roteiro, e tudo isso apenas porque o autor queria chamar atenção para o fato de as novelas retratarem o núcleo da terceira idade como castrado e frígido, como se não pudesse amar, imagina se apenas uma capa preta e aposentada seria o suficiente para chocar à altura da fama do Homem-Morcego? Para chamar atenção à causa e à sua crônica, o cineasta amplia a psicose do herói, agora velho e maneta/aleijado (na pele de Everaldo Pontes), colocando-o numa relação de dependência homoafetiva com o Robin. Ao mesmo tempo que surta em devaneios cercado de demônios e ex-vilões, representados por meros garotos de programa, onde sua obsessão vira pulsão sexual de vida, para não morrer acordado, e caça apaixonadamente, mas não para derrota-los, e sim engolfá-los em seu desejo carnal com piedade, piedade de relíquias que não têm mais lugar neste mundo. Onde um beijo ou uma felação podem significar o sopro da vida para ressuscitar a vontade esquecida (sim, deve-se avisar que há cenas de sexo, mas não mais chocantes, por exemplo, do que é metaforizado do futuro da política brasileira).
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Mas não é só de temas cascudos que se trata o filme. Afinal, quem interpreta o Robin é o próprio diretor/roteirista Tavinho, em alguns dos melhores alívios cômicos e non sense, tendo plena noção do próprio ridículo como instrumento de salvação através do humor. Por fim, vale ressaltar a antológica cena em que levanta o astral do deprimido velho Batman, colocando-o frente ao espelho e afastando a cadeira do mestre para mostrar que um reflexo distante pode enganar o ego como se ainda reluzisse a chama de antigamente.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5