Batguano

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16 de abril de 2015

Com “Batguano”, o cineasta paraibano Tavinho Teixeira faz ressurgir, à sua maneira alucinógena, a teoria ‘cinquentista’ do psiquiatra Fredric Wertham, desenvolvida no livro “A Sedução do Inocente”, de que Batman e Robin teriam uma relação homossexual. Exibido em Festivais como o 22º Mix Brasil, com programação destinada à temática LGBT, e na VI Semana dos Realizadores, o filme em questão traz Batman (Everaldo Pontes) e Robin (o próprio Tavinho Teixeira) como um casal que ainda consegue respirar no caos do futuro próximo. Logo de cara, a ideia parece boa, duas célebres figuras da cultura pop lutando contra o fracasso, um produtivo ponto de partida para fomentar reflexões, a principal delas acerca da super exploração dos produtos de entretenimento, e quais rumos eles devem seguir. A mensagem do longa de Tavinho Teixeira, seja ela de que ordem seja, fica oculta em camadas e mais camadas de filosofia-sonífero, tanto nos diálogos como nas imagens, elementos ricos em desconexão.

batguanoOs personagens abrasileirados de Batman e Robin, esbanjando um português rebuscado, passam a vida em um trailer pouco aconchegante, cercados pelo nada, e por alguns homens vindos sabe-se lá de onde. A nova ameaça que promete assolar a humanidade é uma peste denominada Batguano, doença transmitida por fezes de morcego, felizmente um toque referencial trabalhado de forma divertida. As circunstâncias atuais não são nada promissoras, quase metade da população mundial vive nas ruas e sobreviventes deixam as cidades para resistir no campo, uma espécie forçada de desurbanização, fenômeno que o noticiário chama de “Suspensão do Ocidente”.  A história de amor da dupla nem tão dinâmica assim é estabelecida nesse cenário apocalíptico. A eles, resta valorizar a dádiva da vida, com muito uísque e cocaína, além da tentativa de resgatar uma notoriedade há muito perdida: a dupla bota para leilão o braço amputado de Batman.

batguano1Apontar o sexo explícito como o grande deslize de “Batguano” seria uma atitude pouco inteligente, típica de conservadores incapacitados de lidar com questões que fogem de suas crenças. Antes o real problema do filme fosse essa forma de ousadia, certamente fadada à interpretação ignorante. O nó cego se encontra justamente na atitude do cineasta que dispara a esmo concepções que ultrapassam a simples realidade. Seu discurso baseado em delírios é sua própria algema, um filme sem cabeça, tronco e membros. Triste é contestar que o apuro técnico luta contra o desaparecimento. Não há saída diante da constante reafirmação da intelectualidade cool do diretor e também roteirista Tavinho Teixeira.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 2