Birdman ou A inesperada Virtude da Ignorância

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23 de janeiro de 2015

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O favorito ao Oscar 2015, “Boyhood”, teve o grande feito de ser realizado ao longo de 12 anos, filmando os mesmos atores ao envelhecer. Às vezes são lançados projetos tão inovadores que seu valor para a história do cinema precisa e merece não deixar de ser reconhecido. Para a sorte dos cinéfilos há outra obra que reúne a dosagem transgressora para quase tangenciar o ineditismo do concorrente.  Imagine utilizar um famoso personagem (“Batman” de 1989) que marcou a carreira de ator meio sumido (Michael Keaton) há uns 25 anos atrás, e ironizar vida real e fictícia, numa metalinguagem em espiral constante. Personagem dentro de personagem dentro de ator dentro de personagem dentro de ator…

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Como analogia, Michael Keaton aqui encarna Riggan Thomson, e o alter ego outrora interpretado do Homem-morcego se torna o herói Homem-pássaro, ou, como no inteligente título, “Birdman ou A inesperada Virtude da Ignorância”, de Alejandro González Iñarritú (dos mosaicos “Amores Brutos” e “Babel”). Se não bastasse a premissa inicial, o espaço temporal se desenrola todo no teatro onde este ator no ostracismo está dirigindo, roteirizando e protagonizando uma peça na Broadway em busca de reconhecimento, no desenrolar de alguns dias de ensaios abertos ao público até o dia da estréia, porém o diretor Iñarritú finge utilizar apenas um grande plano-sequência, como se a câmera sempre seguisse algum personagem e quase nunca houvesse interrupção na filmagem. Claro que há, principalmente nas portas que abrem e fecham, dando para perceber o corte ali. Mas o que importa é a ilusão de todas as cenas costuradas só numa tomada, perpassando de cenário em cenário, da noite pro dia, como uma coisa só, um marco já realizado de verdade, sem cortes ou ilusões de câmera, no antológico “A Arca Russa”. Só que em “Birdman”, os cortes disfarçados são intencionais, como troça da pantomima teatral igual a um palco montado.

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Além disso, não se contenta em fazer show de um homem só, mesmo levando em consideração que todos ao redor estão ali para serem catalisadores do processo criativo de seu protagonista, sem falar no fato de que há muito também do infame “Beetlejuice” de Keaton além da dicotomia Batman/Bruce Wayne; de médico e louco todo mundo tem um pouco. O elenco azeitado  dá um show à arte, com destaque para o cada vez mais relevante Edward Norton, criando uma química com Keaton e a filha deste na tela, a aqui eficiente Emma Stone. Isto, pois, seus ácidos diálogos de manipulações mútuas dão total vazão ao curioso subtítulo “A Inesperada Virtude da Ignorância”, já que ninguém sabe de fato quem está no controle ali. A criação que vem do aparente caos e principalmente do big bang de egos. Como um diálogo definidor expressado pela personagem da também ótima Naomi Watts: “Por que eu não tenho nenhum respeito próprio?” e a resposta: “Porque você é uma atriz, querida”. A anulação do eu pelo superlativo do ego traduz ser ator, e discute o que é ser amado? Por si próprio ou pelo público. Amor ou admiração? Como o próprio título da peça que está sendo adaptada dentro do filme: “O que falamos quando falamos de amor”. Todas estas metáforas costuradas por elenco, diretor, roteiro, uma trilha sonora perturbadora de bateria diegética representando o enlouquecimento do personagem, e a fotografia minimalista entre closes bastante tridimensionais das expressões faciais enquanto recitam seus diálogos inesquecíveis.

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Sim… Um ator enlouquecendo com seu papel lembra a todos outro filme oscarizável, “Cisne Negro”, que era sobre bailarina se autodestruindo para virar a personagem…, todavia no presente filme é o completo oposto: um ator transformando sua personagem fictícia no eu-real, além de felizmente se afastar bastante do marcante desfecho do filme citado. Tanto quanto pode se pensar no cult indie “Sinedóque Nova York”, onde o ator transforma sua vida na própria peça, reencenando todas as memórias em cenários dentro de um enorme galpão. E, ainda assim, “Birdman” cria algo novo, não rejeitando Hollywood ou Blockbusters de super-heróis como “Batman” e afins, mas abraçando-os, ironizando-os, e utilizando-se da capa, da máscara, dos super-poderes para dizer que o verdadeiro poder está na mente, quando juntamos nosso eu-mundano e nosso eu-imaginado num amálgama invencível. Este foi Iñarritú evoluindo sua babel cinematográfica de filme-coral em uma mente-coral, onde todas os personagens e catarses e cenas são uma colagem de uma só coisa: cinema-arte.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • Waldir Rock

    um putah filme , representa a expressão da modernização do que se chama fazer cinema , sem necessitar de explosões de nave, raios laser nem perseguição de carros ,,,,,,,,,, filme concorrente e MERECEDOR de oscar … muito bom ,,,, 2 horas de filme passadas em uma única tomada e plano de camera