Blind

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12 de novembro de 2014

Com uma fusão de pegadas de filmes que possuem cada qual seu mérito próprio no panteão cinematográficos, como “Medianeras”, “Mais Estranho que a Ficção” e até “Ensaio sobre a Cegueira”, a coprodução norueguesa e holandesa “Blind” (de Eskil Vogt, co-roteirista do maravilhoso “Oslo, 31 de Agosto”), consegue transcender os toques do que a princípio seriam filmes completamente díspares, e cria uma nova arte de linguagem engajadora a desafiar os próprios sentidos do espectador neste que decerto é uma das melhores obras exibidas exclusivamente neste Festival do Rio 2014.

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Com um fio condutor simples, sobre o qual é bom não descrever demais para preservar surpresas, a narrativa segue o ponto de vista de uma mulher cega (sim, bastante paradoxal), para deliciar o espectador em jogos de cena envolvendo o namorado dela, um amigo e uma estranha em interseções de vida a talvez preencher os vazios causados pela alienação da internet e do não mais conhecer o outro intimamente. O conhecer vai até onde se propõe o querer, mas e se o querer estiver prejudicado? Várias doenças da sociedade moderna são abordadas sutilmente, sem rótulos, como síndrome do pânico, fetiches sexuais bizarros e, claro, a campeã: depressão. Este conjunto de fatores poderia derrapar em um amálgama disforme, pesado ou espinhoso, que, contudo, aqui triunfa em tênue linha agridoce a se realizar através da imediata identificação dos vazios da própria plateia com o nível de entrega das personagens. Com a junção de quem assiste e quem é assistido, seja espectador real na sala escura de cinema ou personagens fictícios a desfilar na telona, esta história deságua novos resultados recíprocos com a junção destes olhares, e quem estaria manipulando quem: o desejo externo ao filme e seus destinatários, ou a condução narrativa inerente ao ficcional por parte de seu remetente? Mérito do diretor Eskil Vogt.

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Do ponto de vista técnico, as atuações azeitadas (principalmente da própria cega, Ellen Dorrit Petersen) são adornadas por fotografia mesclada em fria e calorosa, para alternar momentos de lucidez ou interiorização, e navegar pelo roteiro e suas reviravoltas de pontos de vista, onde, a despeito destas mesmas, o ineditismo da proposta prescindiria de qualquer truque narrativo, já que o desenvolvimento corre fluido e hipnotizante até o final. Nem a discussão reservada mais para o desfecho quando o casal principal verbaliza seus conflitos de maneira mais explícita, quebrando um pouco a corrente das sutilezas e subtextos em minúcias, o filme conquista por transformar amargura e aspereza em doce melancolia redentora.

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Festival do Rio 2014 – Mostra Expectativa

Blind (Idem)

Noruega / Holanda, 2013. 96 min.

De Eskil Vogt

Com Ellen Dorrit Petersen, Henrik Rafaelsen, Vera Vitall, Marius Kolbenstvedt

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5
  • Almanaque2014

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