Boa Sorte

Sabor de ‘Jules et Jim’ no abre-alas de Carolina Jabor pela ficção

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21 de outubro de 2014

Adaptação de conto de Jorge Furtado arrebata pelo lirismo e esbanja maturidade na direção.

Sabe aquela sensação visceral de ser engolido pelo ideal cinematográfico do amor romântico, mas em suas roupinhas mais transgressoras, que “Jules et Jim”, de São Truffaut, deixa na gente a cada reprise? Então… o impacto lírico que “Boa sorte”, de Carolina Jabor, pode causar vai na mesma intensidade. Só vale uma ressalva: é um “Jules et Jim” de dois, pois o máximo de triangulação que existe é um homem, uma mulher (e que mulher é Deborah Secco!) e um vírus, o HIV. Este é faminto por saúde enquanto os outros dois vértices do triângulo estão com fome de um abraço capaz de abrigar suas carências, suas demandas incompletas, seu vazio todo. Para um filme de estreia na ficção, o trabalho de Carolina – realizadora, com Lula Buarque de Hollanda, do doc-pandeiro “O mistério do samba”, de 2008 – surpreende por sua maturidade na arquitetura dos enquadramentos e na direção dos atores. Sua passagem pela Mostra de São Paulo – após ganhar o prêmio de júri popular e de direção de arte em Paulínia, em julho – foi consagradora, de lotar salas e arrancar aplausos aos quilos. Estreia em 20/11.
boa-sorte-deborah-seccoDiante de um conto curto de Jorge Furtado, “Frontal com Fanta”, que serviu como sua espinha dorsal, a cineasta carioca conseguiu um alongamento arejado, sem forçar viradas nem colisões inusitadas. É daquele tipo de trama de amor que ganha a plateia pela leveza. Estreia em novembro para fechar o ano na chave do amor, mas com um gostinho tardio de Dia dos Namorados.

Depois de sua entrega radical ao bas-fond para “Bruna Surfistinha” (2011), Deborah provou ter vontade de potência para estar entre as grandes atrizes do cinema brasileira (à la Fernandona, Norma Bengell, Marília Pêra, Carla Ribas, Alice Braga, Leandra Leal). Mas em “Boa sorte”, potência vira ato: no papel da soropositiva Judite, ela vira uma Jeanne Moreau dos trópicos, capaz de abrir mão das vaidades (e do próprio peso), para compor uma figura nas raias da Morte. Judite foi parar num sanatório para toxicômanos a fim de limpar as veias das drogas que sorveu e que venderam sua alma ao HIV em troca de horas inconsequentes de barato.

boa-sorte-deborah-secco-3O roteiro escrito a quatro mãos pelo próprio Jorge Furtado e seu filho, Pedro, finta os clichês da bagaceira arrependida visto em obras de vulto como “Clean” (2004), do francês Olivier Assayas, e faz de Judite um tipo irredutível em relação à sua voracidade de viver. Mesmo doente terminal, ela não arreda o gosto pela sua rebeldia, como era a apaixonante Catherine de La Moreau em “Jules et Jim”. E Deborah entende bem os dribles de pai Furtado e Furtado filho, garantindo à sua Judite tridimensionalidade, a partir de um jogo de olhares capaz de expressar a vontade da jovem em curtir até o fim. Só que o curtir aqui envolve um excesso que não é etílico, nem venoso, e usa preservativo: o excesso do bem-querer.

O contraponto de Judite é João (o achado João Pedro Zappa, do curta “Os mortos-vivos”), um estudante que vai parar na mesma clínica para se desgrudar da dependência em Frontal e bolotas coloridas afins. Ele crê que a mistura do ansiolítico com refrigerante de laranja pode lhe garantir invisibilidade. João se sente alvo da indiferença do carinho do mundo. Ser invisível é apenas um detalhe para quem não é enxergado pelos pais (Gisele Fróes e Felipe Camargo). Mas uma vez iniciado seu detox, ele se percebe notado por Judite. E, aos poucos, luta para que ela faça mais do que notar seus passos e suas tentativas de roubar dela um beijo.

boa-sorte-deborah-secco-2Na fotografia delicada de Bárbara Alvarez (de “Gorila”, uma gema nunca lançada), o mundo da clínica vira um parquinho de diversões com cara de filme de Michel Gondry (à la “A espuma dos dias”), no qual cada toque, cada gesto de sedução é um “brilho eterno” à parte na mente cheia de lembranças ruins de João. E a cada casa que a paixão de João por Judite avança no tabuleiro do querer as memórias de abandono vão dando lugar a experiências a serem guardadas no veludo da saudade – por João e por nós, plateia, reféns de um exercício de reflexão sobre modos de amar.

Até a chegada de um low point devastador, o filme avança pela chave doce de uma rebeldia possível (e bem-vinda) a estes nossos tempos apolíticos: a crença de que o afeto pode vedar os furos e secar as enchentes. E, mesmo quando a brisa vira temporal, num terço final no qual Deborah alcança o ápice de seu desempenho (e de sua perseverança), Carolina Jabor encontra um meio de conduzir sua narrativa pela passarela da doçura, mostrando uma habilidade como cineasta que nos dá ânimo de esperar pelo próximo longa e por pedir bis de “Boa sorte”, como a gente pede bis de “Jules et Jim”.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 5