Branco Sai, Preto Fica

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16 de março de 2015

Após faturar o prêmio principal na 15ª Mostra de Cinema de Tiradentes com o longa “A Cidade é uma Só?”, Adirley Queirós volta à sala escura com “Branco Sai, Preto Fica”, ganhador do Candango, também de melhor filme, no 47º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. A questão do “apartheid social” é tratada com o radicalismo em sua máxima potência no filme mais recente do diretor, não importa que com isso se obtenha um discurso nebuloso, digerível para poucos. Híbrido de documentário e ficção-científica, na trama um homem volta do futuro para incriminar o Estado, “Branco Sai, Preto Fica” seria perfeito se funcionasse diretamente como grito de reivindicação dos injustiçados ali retratados. O núcleo escolhido é o Quarentão de Ceilândia massacrado em março de 1986, ponto de encontro dos admiradores de “black music” na cidade brasiliense de origens obscuras: Ceilândia surgiu a partir da expulsão dos pobres instalados em Brasília. O título do filme é incisivo e bastante eficaz ― remete à ordem de segregação contida no autoritarismo dos policiais no momento da invasão violenta do Quarentão. Era preciso dividir o preto do branco para o processo vil de “limpeza”.

brancosaiA negligência com a qual Ceilândia é tratada pela capital nacional é outra crítica vivaz que o filme propõe. Marquim e Sartana (Shockito) são vítimas debilitadas tanto física quanto socialmente. Na ficção de Queirós, a entrada em Brasília só é permitida mediante a apresentação de um passaporte. É com esse documento, com a burocracia, que o diretor materializa o problema do abismo entre as classes. Deixando de lado a sinopse para falar puramente da forma cinematográfica, é curioso que o filme repreenda o profundo esquema de divisão social sendo que ele mesmo, em seu prejudicial hermetismo, continue privilegiando um padrão de exclusão. É cinema de uma minoria que não se importa em conquistar o outro pela acessibilidade do discurso. Estamos diante do protesto à marginalidade da periferia feito por uma obra que, em sua incomunicabilidade de uma maneira geral, se orgulha em ser marginal. A quem o bom conhecedor de Ceilândia Adirley Queirós, ele que teve seu “passaporte” para a terra prometida ao ser aceito no curso de cinema da Universidade de Brasília, quer dirigir sua palavra? Ao nicho de debatedores da Ceicine (Coletivo de Cinema em Ceilândia) ou a toda uma sociedade, seja ela de qualquer parte do Brasil ou do mundo, que se identifica com injustiças cometidas de minuto em minuto?

brancosai2Dito isso, nota-se que uma mazela grave do filme é sua impossibilidade de encontrar fôlego fora da atmosfera dos festivais de cinema, eventos frequentados por um público especializado. Para além do desrespeito da indústria cinematográfica brasileira com o cinema produzido em seu próprio solo verde e amarelo, é utópica a ideia de aceitação do filme por um público do dia a dia. Tal fato torna-se improvável se nem o diretor pensou em termos de conquista, preferindo se comunicar apenas com seus semelhantes.

 

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 2
  • http://www.tupi.am/nafita Ana Rodrigues

    Boa sinopse que parece ter sido desperdiçada por uma direção que só aponta para a cabeça dele mesmo (o diretor). Vou conferir.