Cada vez mais longe

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05 de julho de 2017

Questões ambientais vêm sendo cada vez mais discutidas em todo o mundo. Diante disso, o aquecimento global, a escassez de água e a poluição do meio ambiente são os assuntos que se mostram mais urgentes. “Cada Vez Mais Longe”, primeiro longa-metragem de Eveline Costa e Oswaldo Eduardo Lioi (que também atua como roteirista e diretor de arte do filme), mantém seu foco no problema do assoreamento da Baía de Sepetiba, Rio de Janeiro, que teve início nos anos 60 devido à implantação da Zona industrial de Santa Cruz e à industrialização dos municípios próximos. A trama gira em torno do casal Isaura (Branca Messina) e João (Fernando Alves Pinto), que vive na pacata região de Sepetiba e sofre com essas mudanças no cenário que chamam de lar. Ele sai todos os dias para pescar e promete à esposa trazer todos os peixes existentes caso ela pare de fazer e desfazer o seu crochê, atividade que ela alega ser a única para distração diária no lugar, mas que tem real intenção de fazer com que seu marido retorne todos os dias da pesca, que o obriga a ir cada vez mais longe por conta da ocupação industrial. Solitária, Isaura continua a esperar sempre por João.

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“Cada Vez Mais Longe” é pura contemplação – de Isaura e do espectador. Suas belas paisagens com seu horizonte longínquo transmitem toda a sensação de inércia e a solidão sentidas pela personagem. A narrativa lenta, bem conduzida por Costa e Lioi e embalada pela ótima trilha sonora que acompanha a jornada de esperança da protagonista, se encaixa perfeitamente na proposta de reflexão e impacto do filme. A câmera acompanha os passos e o olhar de Isaura, e também o seu desespero ao se ver sozinha sem João num lugar que não reconhece mais. Há 35 anos sem atuar (seu último filme foi “O Coronel e o Lobisomem”, em 1979), Neila Tavares interpreta Isaura na segunda parte do longa e mostra que ainda pode emocionar quase sem falar, fazendo da sua visão a do público e de seus gestos a expressão do sofrimento de sua eterna espera.

Com uma fotografia belíssima, o longa foi filmado em apenas quatro dias com luz natural em diferentes pontos da Baía de Sepetiba, o que possibilitou a mudança temporal de 40 anos no enredo. Produzido sem patrocínio e com um desfecho de tom documental, “Cada Vez Mais Longe” é um filme conceitual que tem como objetivo chamar a atenção para um grave problema ambiental que ocorre em todo o planeta e precisa ser revertido o mais rápido possível. A vegetação irregular, a falta de peixes, o acúmulo de lixo e as manchas negras nas areias, antes tomadas por água e barcos pesqueiros, estabelecem um forte contraste com a beleza natural da área e causam certo desconforto intencional no espectador. A melhor maneira de conscientizar é chocar.

 

Cada Vez Mais Longe

Brasil – 2014. 70 minutos.

Direção: Eveline Costa e Oswaldo Eduardo Lioi

Com: Fernando Alves Pinto, Branca Messina e Neila Tavares.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4