Cala a Boca Philip

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29 de maio de 2015

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Muitos já tentaram emular o cinema de Woody Allen, seja por homenagem ou cópia mesmo. A verdade é que elementos bastante personalísticos do mestre podem ser sim utilizados, como a trilha de jazz, ou a forma de retratar a cidade onde se passa a história como a um personagem, seja NY ou não. Porém só Woody é Woody. O que não é nenhum demérito para a comédia psicanalítica “Cala a Boca Philip” (“Listen Up, Philip”, 2014, escrito e dirigido por Alex Ross Perry). Até porque seu protagonista é Jason Schwartzman, ator maturado nos filmes e roteiros, nos quais às vezes lhe é concedido agregar pitacos, do cineasta Wes Anderson, do consagrado “O Grande Hotel Budapeste” no ano passado, dentre outros. Além disso, Jason também concebeu a série de comédia noir da HBO “Bored to Death”, que versava sobre uma espécie de detetive fracassado e hipocondríaco se misturando em nível pessoal a todos os casos que investigava. Engraçado que, não à toa, seja deste envolvimento pessoal com personagens mais ricos e complexos do que ele, apesar de ele próprio provavelmente não concordar com isso, que é feito o tutano de seu protagonista em “Cala a Boca, Philip”.

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Parodiando este arquétipo que Schwartzman anda evoluindo, um misto da insegurança compensada com ego gigante no estilo dos personagens de Woody, com um blasé intelectual incapaz de se envolver emocionalmente, os tipos que vão cruzando a vida do protagonista ganham espaço e tempo em cena pela generosidade do diretor Alex Ross Perry. Sim, muito do humor da trama está calcado em se rir da megalomania de Philip, escritor de um relativo sucesso que não consegue inspiração para se superar, e, para tal, começa a passar como um tanque de guerra por cima dos poucos entes que lhe seriam queridos, pois admitir amá-los seria um ‘sinal de fraqueza’. Até que cruza o caminho de alguém a espelhar como ele seria no futuro, um mestre da literatura desabonado e cínico, cujo único divertimento é viver através dos que ainda tem a criatividade jovial da qual ele não mais dispõe. Este personagem de casamento fracassado e prestígio moribundo, interpretado por Jonathan Pryce, será o catalisador para Philip rever sua vida e as várias belas mulheres nela contida. Especialmente a filha do mestre, na pele da esquisita e aqui bem aproveitada Krysten Ritter, quanto a ex-namorada de Philip, que continua a evoluir em cena, mesmo após ser dispensada por ele, tanto através de memórias quanto de evolução simultânea, sendo tão importante quanto ele em cena, como as mulheres de Woody Allen sempre costumam ser. É esta pulsão cênica encarnada por Elizabeth Moss, estrela crescente desde a série “Mad Men” a filmes pouco conhecidos no Brasil como o cult instantâneo “The One I Love”, que rasga os preceitos misóginos iniciais e faz das inseguranças femininas a serem superadas apenas reflexo das manchas na prepotência masculina que o homem jamais admitiria.

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Fica um gostinho de já visto, até porque o mestre Woody já fez igual e melhor, porém bem aproveitado, com todas as características saborosas que fazem o espectador ir ao cinema para cada projeto anual do mestre nos cinemas, assim como são bem-vindas as reflexões deste espírito de cinema a pulular a telona como ano passado o fez Barry Levinson com seu “O Último Ato” e John Turturro com “Amante à domicílio”, também boas homenagens singelas a este modo tão peculiar de fazer cinema embebido à jazz, belas mulheres, paisagens-protagonistas que fazem dos personagens catarses psicanalíticas de suas cidades pulsantes.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3