Caminho de Volta

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11 de novembro de 2015

Antes vem a necessidade de um novo cenário, um desejo cuja realização se conclui com uma viagem ao exterior, não apenas como turista, mas como alguém que pretende ficar. O documentário “Caminho de Volta”, de José Joffily e Pedro Rossi, começa quando os resultados dessa mudança esgotam-se, obrigando um retorno ao ponto de partida. A câmera, que prefere acompanhar rotinas a colher depoimentos, é dependente de fios condutores específicos ― dois brasileiros, um na América do Norte e outro na Europa, Estados Unidos e Londres respectivamente. A senhora chamada Maria do Socorro foi movida por um forte instinto maternal em seu processo de estabilização nos Estados Unidos: sua principal função constituía-se em acompanhar Fernando, filho adulto, até que ele conseguisse se virar sozinho com o arrimo da cidadania americana. Maria do Socorro ama a América e a ideia de voltar lhe traz uma ponta de sofrimento. Para ela, a viagem de retorno para o Brasil exige abandono de pedacinhos de si ― o filho e a casa que ela transformou em lar doce lar. André Câmara, um fotógrafo que mora em Londres, acumulou conquistas durante sua longa estadia no exterior, mas o auge passou e agora ele é obrigado a lidar com amargos frutos do declínio. Ao contrário de Maria do Socorro, André gerou vínculos ainda mais profundos no território que o acolheu ― filhos ingleses e um relacionamento que se abala (sem desmoronar) durante uma análise dos prós e contras que envolvem o retorno para o país de nascimento.

Uma questão importante levantada por “Caminho de Volta” diz respeito ao congelamento da imagem que o imigrante tem do país deixado para trás. É preciso estar consciente do tempo que transforma tudo e todos. O Brasil que povoa o imaginário de Maria do Socorro e André certamente não é mais o mesmo. Essa tal tecla do caminho de volta que o filme pressiona o tempo todo contém em sua essência uma poderosa complexidade ― até que ponto existe esse sentimento de origem se nós mesmos podemos transportar nossas raízes e fincá-las nos lugares mais distantes. Esse Brasil que os dois personagens abandonaram com certeza não existe mais, por forças incontornáveis. Sendo assim, além de situada na própria memória, onde foi parar materialmente esse lugar de origem? José Joffily e Pedro Rossi dirigem um documentário que ostenta sequências com alto nível de realidade, sem qualquer indício de encenação. As intenções documentais ganham outra dimensão quando um dos filhos de André, confrontado pela câmera, reclama com o pai, incômodo visivelmente gerado pela privacidade invadida. Em outro momento, André e a companheira, na já mencionada análise das implicações da viagem de volta, dão início a uma discussão não coibida pelo olhar cinematográfico. Ponto altíssimo de “Caminho de Volta” é o paralelismo sutil com um dos melhores documentários brasileiros da história do cinema nacional ― “Edifício Master” (2002) de Eduardo Coutinho. Quando Maria do Socorro ouve emocionada, ao lado do filho, a canção “New York, New York” de Frank Sinatra, é impossível não recordar do Sr. Henrique, inquilino de um dos apartamentos do Edifício Master, cantando com o coração a música “My Way”, também de Sinatra. “Caminho de Volta” é um sensível contribuinte para a reflexão acerca do fluxo migratório, tema que não sai de moda já que a busca humana por uma vida melhor será sempre constante.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4