Campo de Jogo

por

22 de julho de 2015

Perto da suntuosidade do estádio do Maracanã, palco da final da última Copa do Mundo, um campinho de terra, resquício que marca a extinção daquilo que se convencionou chamar “futebol arte”, luta pela sobrevivência em um bairro humilde da Zona Norte do Rio de Janeiro: Sampaio. Quem percebeu o potencial social da região, uma boa forma de unir futebol e cinema, foi o diretor Eryk Rocha, filho dos cineastas Glauber Rocha e Paula Gaitán. Da descoberta, nasceu “Campo de Jogo”, filme que exportou o futebol de raiz ao ser exibido em festivais de países diversos. Contrapondo-se aos campeonatos de futebol televisionados e mundialmente conhecidos, no campinho de Sampaio 14 times de comunidades disputam o campeonato anual. “Campo de Jogo”, após o mergulho no organismo da competição, centraliza a última etapa ― o jogo de decisão entre os times Geração e Juventude.

A forma como Eryk Rocha escolhe filmar seus personagens da vida real evidencia o seu respeito com o futebol como manifestação cultural ― cenas da “finalíssima” acalorada transformam-se em poesia visual pela maneira como a câmera demonstra intimidade com o corpo dos competidores. Um conjunto que prioriza a proximidade, valorizada por música erudita, e renega as câmeras estratégicas típicas das transmissões esportivas. De fato, a partida filmada em nada se comunica com o cenário atual do futebol profissional. As díspares relações com a bola que rola deixam claro que, na invisibilidade do subúrbio carioca, jogadores amadores, e não atletas pasteurizados, fazem da pura vitória a melhor compensação pelo suor derramado. O modo aguerrido como os jogadores articulam-se em “Campo de Jogo”, sem o respaldo de uma gorda conta bancária ou preparo físico de ponta, é uma boa lição aos derrotados (e lacrimosos) protagonistas do vexame do 7×1 da Copa. Quem diria. Sim, o que vem de baixo pode atingir.

Diante da paixão dos peladeiros em confronto com a apatia esportiva, fica a impressão de que tudo isso se resume ao dilema do amadorismo versus profissionalismo. Nessa dissonância, soma-se um terceiro concorrente ― a mídia que carrega sua fábrica de celebridades. Como o futebol arte poderá sobreviver nessa tendência ascendente de espetacularização milionária? Tanto os guerreiros anônimos do time Juventude quanto os da equipe Geração, driblando as tentações do materialismo prometido pelo crime, mostram através da câmera de Eryk Rocha as belezas desse raro diletantismo. A exibição do troféu pelas mãos dos honrados jogadores que levaram a melhor, caminhando empolgados pelas ruas da comunidade, é de uma autenticidade ímpar. Um simples ato que resume o sentido da competição ― um troféu erguido unicamente por paixão, sem qualquer implicação mercantil.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 4