La Tête Haute – Cannes começa com olhar sobre juventude

Numa direção marcada pela sobriedade, a produção francesa 'La tête haute' inaugura o festival à luz de Catherine Deneuve numa discussão sobre delinquência juvenil

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13 de maio de 2015

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Na contramão de uma linha cada vez mais recorrente nos maiores festivais do mundo de inaugurar suas seleções anuais com superproduções cheias de som e de fúria ou com potenciais candidatos a Oscar, Cannes optou por iniciar sua 68° edição, nesta quarta-feira, na barra da saia – ou melhor, na barra da toga – do intimismo, com “La tête haute”. Ecos de “Os incompreendidos” (1959), filme pilar do cinema moderno na França (chamado Nouvelle Vague), dirigido por São Truffaut, tonitruavam pelo Palais des Festivals (o centro nervoso do evento) conforme o vigoroso drama de tintas judiciais de Emmanuelle Bercot desfiava seu enredo. Suas ambições narrativas não são da ordem da reinvenção da imagem nem das estratégias de fabulação do Ocidente: trata-se apenas de um gesto de simplicidade (MUITO BEM) calçado na segurança de sua realizadora (também atriz) para conduzir seu elenco à instâncias de tensão absolutas, incluindo a diva das divas, Catherine Deneuve. Emmanuelle havia dirigido a “bela da tarde” antes em “Ela vai” (2013), mas, aqui, as duas alcançam uma cova mais funda da alma humana – a cova do desamparo, cavada a partir da delinquência de um adolescente.

Dialogando com cartilhas documentais na forma, em seu visual de um realismo decotado, sem adereços nem arejamentos, “La tête haute” abre uma escotilha para as feridas existenciais de um garoto órfão de pai, filho de uma jovem sem uma filigrana de consequência e de responsabilidade na cabeça: o cão bravio Malony (Rod Paradot). Aos 16 anos, ele soma um histórico de uma década de detenções na vara de menores presidida pela magistrada sem nome encarnada por Miss Deneuve. Ao longo de anos de sentenças provisorias e esboços de condenação, a juíza se torna um complemento afetivo frente às lacunas familiares de Malony, defendido com uma garra de impressionar pelo estreante Paradot.
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Mais do que traçar uma cartografia do mundo carcerário onde adolescentes infratores são confinados numa pátria como a França, “La tête haute” se ocupa de rastrear os processos de amadurecimento que podem se dar num ambiente enluarado pela violência. Emmanuelle não tenta julgar Malony: seus erros estão na tela, aos montes, em exponenciação, mas as justificativas morais e legais no cerne deles estão também no roteiro filmado. Mesmo sendo tratada de modo coadjuvante, sem tridimensionalidade, a juíza de Deneuve também desvela suas fraquezas e suas incertezas entre uma decisão e outra. Essa composição do universo judicial evoca por demais um outro filme, além de “Os incompreendidos”: o brasileiro “De menor”, de Caru Alves de Souza, vencedor do Festival do Rio de 2013. Em ambos, um senso de delicadeza rege o desenho das juristas ligadas à defesa de infratores juvenis.

“Precisei estudar muito esse ambiente dos juristas, pois precisava entender de onde vem a paciência que eles têm”, disse Catherine, em Cannes, logo depois da projeção.

A seu lado, a diretora Emmanuelle Bercot complementava: “Essa pesquisa do real era importante para assegurar vitalidade à imagem: queria um filme colorido, luminoso, que conseguisse, com suas luzes, retratar a secura de um universo sombrio como o da delinquência juvenil”, disse a cineasta em resposta ao Almanaque Virtual.

Aplausos no fim da projeção (cheia até o fim) e comentários condimentados de elogios mostram que “La tête haute” foi um voto de sobriedade do curador Thierry Frémaux na composição do festival de 2015, cujo primeiro longa-metragem em concurso pela Palma de Ouro a ser mostrado à imprensa vai ser o japonês “Umimachi Diary”, de Hirokazu Kore-Eda. Mas, nas conversas sobre as próximas atrações, fala-se mais sobre um filme fora de concurso do que sobre os candidatos à Palma dourada: “O homem irracional”, de Woody Allen, é o xodó de todos, desde já, pela possível vinda de Joaquim Phoenix, agora no posto de (anti-)herói romântico.

E é apenas o começo de uma maratona que segue até o dia 24. Fôlego. Fica com a gente e vem que eu te conto pelo caminho o que rola por aqui.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 4