Capital Humano

A Política de desvalorização do ser humano

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04 de dezembro de 2015

“Capital Humano”, indicado da Itália para a pré-seleção de filmes em língua estrangeira de 2015, reuni qualidades inegáveis cênicas e de produção, de modo que representa de certa forma não apenas a filmografia italiana como boa parte da situação política da Europa. Em meio à crise financeira e social italiana bem como de seus vizinhos fronteiriços, é simbólica a crônica moderna familiar numa espécie de “Crime e Castigo” de Dostoievski trazido para o presente. Quando a filha promissora de uma família humilde se envolve com o filho de um casal poderoso e rico, o pai dela acha que pode investir com os peixes grandes e sair ileso… Até que um crime cometido por um dos personagens talvez dê vantagem ao elo mais fraco.

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Esta história já foi vista antes, então seu diretor, Paolo Virzi, atribui camadas a mais para submeter a questão a uma lente aumento diferenciada. Em primeiro lugar, divide o filme em capítulos, cada qual por um ponto de vista de personagens distintos, omitindo do espectador certas informações relevantes de acordo com o conhecimento interno da trama de cada envolvido. Ora um ângulo mais humilde, ora de um dos poderosos, oscilando quem tem o controle sobre cada situação. A moeda como referência capital no mundo pode mudar de mãos, mas todos sabem o quanto dinheiro não é necessariamente sinônimo de poder, e daí advém o título mais do que ambíguo “Capital Humano”. Qual o valor de uma pessoa no coeficiente da balança de poder?

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Como todo filme de construção chamada ‘coral’, ou seja, sem necessariamente possuir apenas um protagonista, e sim vários espargindo o foco da trama, somos levados a nos identificar (ou não) com cada um, o que por si só gera resultados díspares. O primeiro capítulo, apresentando o pai da garota humilde, começa bem o ritmo do filme já engatilhando dilemas morais: como usar dinheiro que não tem para se fingir ter e obter mais. O segundo capítulo, apesar de ser o mais exitoso em performance dramática pela fenomenal atriz Valeria Bruni Tedeschi (de “Um Castelo em Paris”), acaba um pouco raso de conteúdo, preso à ótica do capítulo anterior já mostrada na íntegra, cheio de elipses desnecessárias no corte da montagem das velhas cenas revistas sob o ângulo da matriarca rica. Sem falar nas atuações que pouco acrescentam do marido e filho desta. Mas é do terceiro capítulo em diante, quando enfim a personagem da filha (a revelação Matilde Gioli) pode florescer, que todos os elementos se completam e agregam o verdadeiro valor do filme para não cair na mesmice.

O desfecho, não surpreendente, porém extremamente necessário, ilumina holofotes sobre as diferenças sociais e quem paga o preço da corrupção de valores, a troco da própria alma. Para quem não sabe, o filme ainda explica o significado de ‘Capital Humano’ no direito, que, em processos de indenização por danos materiais e morais, o valor é calculado em cima deste capital, ou seja, de quantos membros da família a pessoa tinha que sustentar, seu caráter ilibado na sociedade, o trabalho que exercia e etc… Ou seja, diante da política de desvalorização do ser humano na inflação de ostentar o que não se possui, nem o mais inocente sai incólume.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3