Club Sandwich

Filme ousado e provocador gera polêmicas, mas inova para cinéfilos com 'gostinho de quero mais'

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04 de maio de 2015

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Sim, este é um daqueles filmes em que nada parece acontecer e muito se sucede nas entrelinhas. Sim, espectadores saem no meio da projeção. Porém, ao mesmo tempo, os cinéfilos mais sazonados estão louvando a experiência fora do comum. Quando um crítico faz uma resenha ele analisa objetivamente as qualidades de produção e se alcança ou não seu objetivo, e para qual público alvo se destina. Não quer dizer que uma parcela determinada não se identifique com aquela temática ou desenvolvimento, que seja desprovido de méritos. E quão grata surpresa é conceber que “Club Sandwich” realmente traz uma linguagem cinematográfica desafiadora, mas recompensa aos que se desafiarem a olhar por um novo ângulo.

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Dirigido pelo mexicano Fernando Eimbcke, cineasta por trás dos laureados “Temporada de Pato” e “Lake Tahoe”, o novo “Club Sandwich” fala sobre o delicado amadurecimento da relação entre mãe e filho, dos ritos de passagem de ‘príncipe da mamãe’ para homem e rei de seu próprio castelo, o que não é fácil nem para um lado nem para o outro. Todo jovem pode se identificar, quando começa a sair para namorar, o quão protecionistas são seus pais, em qualquer geração que seja. E a despeito de serem clichês psicanalíticos, o pai de fato se apega mais à sua princesinha (como já abordado no cult “Um lugar qualquer” da Sophia Coppola, mas invertido, sobre reconectar os laços perdidos), e a mãe ao seu príncipe. E eis que aqui, os velhos arquétipos se encontram com a realidade à beira da piscina de um resort de férias, em baixa temporada, e esta mãe terá o infortúnio de, mesmo numa época completamente vazia, ver seu filho encontrar uma namorada e se descobrir sexualmente. Poderia facilmente descambar para uma comédia americana reciclada, já abordado originalmente por “Porky’s” e nem tanto por “American Pie”, o que felizmente não é o caso.

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O diretor Eimbcke sabe ter a paciência de trabalhar suas personagens através de minúcias, pequenas ironias com jogos de cena que fazem cada um se entregar nos sentimentos mais egoístas ou simplesmente humanos, não obstante as escolhas para contar tal história como a quase ausência da trilha sonora a não ser diegética, combinada com os enquadramentos estáticos à la pinturas de Edward Hopper, poder alienar alguns espectadores. O cerne despido de truques narrativos quer focar que não é que o filho deixe de amar aquela mãe, apenas segue um instinto milenar primal de procriação, ou o velho e bom romance como o cinema prefere dizer, e se interessa por alguém, alguém que não seja a própria matriarca, até então único modelo de comparação e da bolha de mundo ao qual as crianças são apresentadas desde que nascem. Nesta história não importa o pai, não importa de onde são, nem classe social. É simples análise de vida universal. E o jovem garoto, bem defendido pelo novato Lucio Giménez Cacho, perambula pelo resort; come em exagero, inclusive os club sandwich do título que ainda os unem na alimentação de família; e ainda veste o biquíni da mãe ao mesmo tempo em que desvenda o próprio corpo espiando a única garota do hotel nadar na piscina de noite… São reflexões. Mas não é existencialismo, como algumas parcelas de público gostam de categorizar pejorativamente, é simplesmente psicanalítico, observativo, tão intrigante e revelador nos gestos e expressões quanto aqueles que defendem uma espiadinha nos programas Big Brother da vida, ou na janela do vizinho… A isto confere cenas constrangedoramente hilárias de extremo desconforto principalmente para a mãe (e aí a atriz María Renée Prudencio se revela e rouba a cena), como os flagras ao filho, seja no quarto do resort ou na praia, e principalmente a cena do jogo de cartas, onde os três se descortinam, como três camadas de um club sandwich, com uma veracidade ímpar capturada pelo cineasta. O filme ganhou a Concha de Prata de melhor direção no Festival de San Sebastián e melhor filme no Festival de Turim.

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Ao invés de simplesmente apontar para as pessoas que saem da sala de projeção antes do final por acharem não se identificar com o tema, vale dar uma conferidinha dentro de nós mesmos para ver se o que realmente constrange não é a identificação atemporal com os dissabores e vergonhas do crescer, podendo catalisar ainda mais a experiência do filme. E que sinceramente, não há nada de errado se masturbar escondido no banheiro, mesmo que sua mãe desconfie quando demora demais tomando banho no chuveiro…

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4