Coletiva – “Boa Sorte”

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28 de novembro de 2014

Na segunda-feira, dia 10 de novembro, o Almanaque Virtual marcou presença em um hotel da zona sul carioca na cobertura da coletiva de imprensa do filme “Boa Sorte” (exibido previamente aos jornalistas), na qual estiveram presentes a diretora Carolina Jabor, o co-roteirista Pedro Furtado (filho de Jorge Furtado, autor do conto “Frontal com Fanta” no qual o longa se baseia) e a atriz Deborah Secco.

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A primeira pergunta foi direcionada à protagonista Deborah Secco, que disse ter emagrecido 11 quilos para viver a soropositiva Judite, chegando a 44 quilos, e esclareceu sobre sua internação pouco tempo após o término das gravações devido ao apego excessivo à personagem e à tristeza causada pela dificuldade em se desligar dela. Deborah comentou sobre os dados alarmantes da AIDS no Brasil, até então desconhecidos pela atriz, que mostram que a doença vem crescendo nos últimos anos, principalmente entre jovens com menos de 23 anos. A diretora Carolina Jabor completa dizendo que o filme e o conto são uma crítica às drogas lícitas e à facilidade em diagnosticar a tristeza e a depressão, e à irresponsabilidade na prescrição de medicamentos para tal. “O nosso interesse em adaptar o conto veio desse comportamento contemporâneo em relação às drogas lícitas versus as drogas proibidas, e falar um pouco sobre loucura e sanidade. (…) Mas houve também uma preocupação do Pedro de o filme não virar moralista”, esclarece. Pedro Furtado ressalta outro ponto positivo do longa, que é a menção da camisinha pelos personagens antes do ato sexual, coisa pouco vista no cinema e na televisão.

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Logo a personagem Judite vira o assunto dos três entrevistados, que emitem suas visões acerca da mesma. Segundo Pedro, “Judite é uma espécie de mentora de João, mas ao mesmo não é uma mentora politicamente correta. O assunto não é tratado com hipocrisia, pois a droga também tem um lado bom, o prazer que proporciona, e os jovens se identificam com isso”. Deborah e Carolina completam, respectivamente, com as afirmações: “acho que o que ela quis mostrar para ele é que ele tinha que conhecer e saber parar” e “Judite era uma mulher incompleta: como João falou, ela vivia das drogas à ioga”.

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Carolina afirma que o foco do longa é voltado para uma história de amor improvável, de se propor a vivê-la independente de sua finitude. Segundo a diretora, a clínica é apenas o pano de fundo da história, o principal é o encontro amoroso desses personagens que nunca se encontrariam, e a clínica funciona como o seu ponto de encontro. Ela fala que não queria que a clínica fosse estereotipada, cheia de “malucos barra pesada”, e sim um lugar de reabilitação, como é na realidade hoje em dia pelo que pôde ver em suas pesquisas. O modo como um adolescente entra numa clínica também foi outro ponto que chamou a sua atenção para compor a trama, mas o foco sempre foi na relação de Judite e João. “O que a Judite traz para o João é a apresentação do amor, de que a vida é possível através do amor, do sexo, da alegria, do prazer e da loucura também”, declara. “Os dois se trazem ao amor – ela vai diferente porque encontrou o amor e ele começa diferente pelo mesmo motivo. (…) O João pra ela era o máximo do amor incondicional”, acrescenta Deborah.

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Carolina conta que, apesar do baixo orçamento, a sua prioridade foi o elenco, que conta ainda com a participação de Cássia Kis Magro interpretando a psiquiátrica da clínica, que é quem representa a instituição como um todo, Fernanda Montenegro como Célia (a excêntrica avó de Judite), Felipe Camargo e Gisele Fróes como os pais de João. Carolina disse que para compor “Boa Sorte” se inspirou nos filmes de baixo orçamento do cinema independente americano, além de utilizar a sua bagagem de cinema francês, do qual é fã. Quando pensou em fazer o filme, ela quis que fosse simples, cru e conceitual, com enquadramentos mais simples. Para tal, Carolina recorreu à diretora de fotografia Barbara Alvarez, que compartilhou de seus mesmos desejos quanto à filmagem. Quanto à trilha sonora, ela diz que desejou ser o mais silenciosa possível, só crescendo em alguns momentos essenciais para contar a história.

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Pedro diz que adorou o resultado final do filme e o olhar feminino detalhista e estético da diretora, que agregou muito ao roteiro que co-escreveu com o pai Jorge Furtado. Ele, que já atuou no filme “Houve uma vez dois verões” e na novela da Globo “Mulheres Apaixonadas”, e foi também roteirista do programa “Um Pé de Quê” do canal Futura e da série “Mulher de Fases” da HBO, defende que atuar ajuda muito na hora de escrever um roteiro, pelo fato de possuir também a visão do ator e saber quando as falas vão funcionar melhor em cena.

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Sobre os ensaios, Carolina diz que “Deborah estava com uma enorme disposição em se entregar e se desconstruir. Ela dizia que não queria fazer nada do que já fez”. Foi trabalhada também a intimidade entre Deborah e João Pedro Zappa para que parece verdadeira aos olhos do público. Deborah disse que sua paixão pela personagem Judite foi imediata ao ler o conto “Frontal com Fanta” de Jorge Furtado no livro “Tarja Preta” e que rapidamente entrou em contato com Carolina ao saber que ela o adaptaria para o cinema, a fim de participar do projeto. E conseguiu, pois Carolina disse que percebeu que ela era perfeita para o papel no primeiro teste de leitura.

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Ao ser indagada sobre sua participação como produtora executiva de “Boa Sorte”, Deborah respondeu que acabou sendo co-produtora em “Bruna Surfistinha” (2011), que protagonizou, adquirindo certa experiência nessa área. “Como produtora, consigo mostrar um pouco mais da atriz que eu sou, da artista que eu sou e quero ser. Quero agora poder escolher as personagens que vou fazer e me disponibilizar inteiramente a me desconstruir, pois o que isso gerou artisticamente em mim é o que realmente faz a minha profissão valer a pena na minha vida. Então cada vez mais vou ter que produzir e escolher histórias, e vou acabar trabalhando menos, porque não se faz um filme a cada mês, mas é isso o que quero pra mim. É uma escolha muito certa”, afirma.

Acerca da nudez de Judite no longa, Deborah diz que a personagem já estava tão fora daquele corpo físico, que ela era muito maior do que aquele corpo e que as roupas eram o que tinha de menos interessante. Carolina completa: “A nudez ali era mais natural, não era para sensualizar. Há um contraste muito grande entre a nudez da Bruna e da Judite”.

“Boa Sorte” estreia dia 20 de novembro nos cinemas.