De Cabeça Erguida

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22 de setembro de 2015

Depois de “Ela Vai”, a nova dobradinha da diretora Emmanuelle Bercot e da atriz-baluarte Catherine Deneuve, o sociopolítico “De Cabeça Erguida” (”La Tête Haute”) teve o prestígio de abrir o Festival de Cannes 2015 e agora fazer a conexão França-Brasil através do Festival Varilux de Cinema Francês. E sem jetleg. Num momento muito oportuno, o filme chega logo em meio ao debate da proposta de Lei da redução da maioridade penal devido ao aumento da visibilidade de crimes em cartões-postais do Rio. Versando sobre um menor negligenciado pela mãe solteira e pela administração pública, cabendo resvalar no Poder Judiciário e medidas socioeducativas a reabilitação do jovem marginalizado.

Diante de uma clara e ampla pesquisa interna do sistema, a diretora presenteia Deneuve com um papel à altura da estrela, da juíza que se vincula desde cedo ao processo daquela criança incompreendida desde o berço, como uma quase mãezona de uma afetividade mais isenta, mesmo que coadjuvante à força visceral do protagonista não-ator Rod Paradot, no papel do hiperativo adolescente-‘problema’. A química inegável na colisão de gerações, na técnica da cineasta em misturar artistas com e sem experiência, amplifica a carga dramática de modo a embriagar a tela de um impacto acachapante, porém crível. Em nenhum momento vitimiza ou exacerba aquele orgulho como disfarce da insegurança do indefeso garoto agressivo apenas porque não entende nem é entendido pela sociedade pré-determinada onde ele não se encaixa. Como ficam aqueles que não podem ser facilmente encaixados, por famílias carentes de infraestrutura financeira ou emocional? Realmente estaria certo o Brasil em jogar na cadeia e trancar a porta junto com notórios criminosos profissionalizados? Sem um sistema que separe os diferentes com diferença respeitosa, que considere que todos têm chance de reabilitação, principalmente aqueles que nunca a tiveram desde o berço.

O filme não abre concessões poéticas. Não é por mal, a vida também não. Para aqueles que defendem que a linguagem cinematográfica deve ter uma certa licença poética para virar Filme com letra maiúscula, senão poderia ser documentário, ou de tantas mazelas poderia ser acusado de pragmatismo tendencioso, não encontrará respaldo lúdico aqui. Até mesmo quando o protagonista se envolve romanticamente e o espectador pode pensar que uma menina alivie a trama e seja uma lufada de esperança, a cineasta dolorosamente lembra a todos que romance de cinema na vida real significa é precisar de maturidade e responsabilidade, senão o fardo dos trancos e barrancos o atropelam. Ou seja, não há leveza para redimir o personagem, muito pelo contrário, é ter a cabeça erguida mesmo diante do peso da vida que redime o ser humano comum todos os dias…

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 5