Debate com domésticas e elenco de “Que Horas Ela Volta?”

Debate se transforma em relevante estudo antropológico da sociedade moderna e suas transformações

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27 de agosto de 2015

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Em pleno domingo de manhã, o Grupo Estação de Cinema, a Pandora Distribuidora e o filme “Que Horas Ela Volta?” de Anna Muylaert e com Regina Casé, Karine Teles e Camila Márdila, forte candidato brasileiro ao Oscar 2016 de língua estrangeira e ganhador de prêmios nos Festivais de Berlim e Sundance, fizeram uma sessão de pré-estreia muito especial. Pela temática do filme tratar com humor e sensibilidade da relação entre patrões e empregadas domésticas, foram convidadas empregadas que apresentassem sua carteira de trabalho e pudessem assistir ao filme gratuitamente, com direito a debate depois na presença de parte do elenco premiado.

11938128_10203607107658075_783803663_nKarine Teles que interpreta a patroa e Camila Márdila no papel da filha da empregada tiveram orgulho em apresentar o filme e ficar para uma conversa intimista depois em que nenhum tema ou polêmica foram deixados de lado. A começar com o fato de muitas domésticas trabalharem de maneira autônoma como diaristas, sem carteira de trabalho, e a produção do filme gentilmente cedeu as entradas também para as espectadoras que não puderam apresentar a carteira como requerido.

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A personagem de Camila no filme guarda um segredo e uma autoconfiança muito grande, de quem já foi muito calejada pela vida. Além disso, ela tem uma simpatia, quase compaixão com o personagem mais velho do patrão, tendo sido citado no roteiro um professor de História de onde ela morava que já lhe estendeu esta mesma solidariedade. A conta disso, a atriz conta que a diretora Anna Muylaert chegou a criar o roteiro de um prólogo apenas para Camila, sobre como a personagem da filha da doméstica chegou a SP e o que passou antes, provavelmente memórias duras ou traumáticas que criaram uma armadura nela e a motivaram a partir.
Karine explica que desde o princípio a cineasta lhes instruiu que o filme falava sobre três mulheres. Uma que se acha superior por inúmeras razões, outra que se acha inferior. E a terceira que se acha igual. Mas que apesar de existirem estas divisões no filme como uma crítica, com quartos, portas, mesas e outras coisas separadas para ambos os lados, a própria Karine acredita que a cultura está evoluindo para além de quaisquer divisões físicas – ela mesma mantendo a crença de que culturalmente esta divisão nem deveria existir. Neste momento, uma das domésticas pediu licença para falar e afirmou crer que essas divisões seriam necessárias sim e que devem existir. Como Karine incrementou o debate, o problema não é a individualização da categoria, pois ela é bem definida e tem enfim direitos e reconhecimentos devidos, porém a coisa se complica para a sociedade em geral quando a profissional doméstica mora na casa do empregador. Aí é que os limites são testados, de até onde vai a liberdade de cada um, necessitando, claro, respeito mútuo. Neste sentido, a empregada respondeu dizendo que é exatamente por isso que ela crê que seja melhor manter a separação bem definida. Mas será?

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A atriz Camila Márdila completa perguntando algo em retorno, pois será que a sua personagem Jéssica, filha da doméstica da casa que quer fazer vestibular pra ser arquiteta, não estaria justamente quebrando esta corrente? Este que vos escreve, representando o Almanaque Virtual acrescenta mais um pouco: Será que a personagem da própria empregada, na pele de Regina Casé, não estaria também quebrando a corrente? Pois é ela quem paga pelos estudos da filha. Mesmo distante fisicamente, ela sempre apoiou a família financeiramente. E aí a nossa representante da categoria concorda com esta parte e se reconhece como esta desbravadora também, pois igualmente pagou pelos estudos de seus filhos.

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Num outro momento, outra ex-profissional da área, que hoje tem ela própria uma Companhia de Teatro, explica que por 40 anos trabalhou junto a uma família maravilhosa que sempre a apoiou e tratou com dignidade e respeito, mas ela sabe que nem sempre é assim. A própria Karine desabafa a história de um membro da família de seu marido que também veio de origem humilde e agradece muitíssimo pela força e suporte que recebeu da família que lhe acolheu para depois conquistar todas as coisas que conquistou. E mais uma profissional e seu marido ali presentes argumentam que até dentro mesmo da própria categoria há muito preconceito ainda, como a cunhada desta, que tinha muita inveja do trabalho dela e chegou até a fazer “macumba contra eles”, nas palavras dela. Ou mesmo a patroa, que, apesar de respeitosa e ‘amiga’, só veio a assinar enfim sua carteira de trabalho no ano passado, um direito de todas as domésticas. O que a própria assessora do filme, Luciana Leal, também defendeu com garra, por orgulhar-se também de vir de uma origem humilde e ter batalhado por tudo o que conquistou graças à sua família ter trabalhado muito para que ela pudesse ter acesso e escolhas na vida.

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Mas não só de representantes da categoria era formada a platéia, pois havia um advogado também que fez questão de enaltecer os direitos conquistados até então que retiram muitas das profissionais do modo mais informal com o qual lhes tratavam anteriormente, ou não assinando carteira de trabalho e até retendo ela, ou não recolhendo os direitos como INSS e FGTS. Ainda ocorre muito, principalmente na divisão da categoria diarista, porém as sanções são muito maiores desde mudança de Lei recente. Outra coisa é até mesmo a dignidade e nobreza em se reconhecer a categoria como ela é, pois muita gente ainda tenta ‘atenuar’ chamando suas empregadas de ‘assessoras’ ou ‘secretárias’, o que representam outras categorias não menos edificantes, porém cada qual na sua própria especialidade, e não se deve diminuir cada uma delas confundindo seus nomes ou sentindo menos orgulho do trabalho que realiza, pois, assim como o título do filme traduzido livremente para o inglês para seu lançamento internacional, “The Second Mother”, muita empregada doméstica pode ter orgulho de ter sido uma segunda mãe para muitos filhos de seus empregadores, e ajudaram e continuarão ajudando a formar valores e integridade de muitos jovens das gerações futuras.

Tanto que Karine acrescentou uma informação exclusiva, relatando uma cena que foi filmada e cortada na versão final do filme, podendo aparecer posteriormente em versão estendida ou no bluray do filme: Sua personagem, a patroa, começa a se sentir incomodada com a extrema intimidade que o filho tem com a empregada, mas não possui com ela mesma. Até perceber que ele mantém o hábito de quando não sente sono ir dormir no quarto de empregada como se com sua figura materna que lhe traz real conforto, e sua mãe, então, o repreende por isso.

Muitas histórias edificantes, ternas ou duras, mas sempre honrosas. Um filme que representa não apenas um retrato social de mudanças como também evoca e dá nome para as equiparações sociais mais fortes do que nunca na direção da igualdade. Palmas para “Que Horas Ela Volta?”