A Despedida

Recado para valorizar a vida

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18 de outubro de 2014

O que você faria se descobrisse que sua vida está acabando? Antes de imaginar uma série de coisas incríveis, difíceis até de realizar, pense que algumas que parecem pequenas, talvez, possam ter um grande significado. Tudo depende do ponto de vista. E é assim, só que através da câmera (e do som!), que o espectador embarca na jornada de um dia em A Despedida, grande vencedor do Festival de Gramado 2014.

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Um Almirante aposentado (Nelson Xavier), de 92 anos, já não comanda mais seu corpo, que revela seu extrato na forma de rugas, tremedeiras, falta de audição e no uso de fraldas. Em uma manhã, como se percebesse o chegar “da hora”, surpreende a família, dizendo que tomará café no bar de sempre. Mais do que isso, ele quer acertar uma “pendura” antiga com o dono do estabelecimento, primeira missão de um dia intenso que reserva, entre outros, um pedido de desculpas a um amigo de longa data e um aguardado reencontro com uma amante (Juliana Paes) 55 anos mais nova.

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Novamente inspirado em experiências pessoais, dessa vez na vida do avô, o cineasta Marcelo Galvão (Colegas) apresenta com muita delicadeza um drama que faz o espectador, já nos primeiros minutos, vivenciar o momento. Seja pela estranheza nos minutos iniciais que a qualidade do som (uma grande sacada) irá causar, ou pela câmera, que acompanha no ritmo de um andador, ali passinho a passinho, as dificuldades enfrentadas pelo protagonista. É o que se percebe também na cena inicial com dois relógios, mais precisamente despertadores, deixando claro que o fator tempo e com ele um tema caro, a velhice, serão motivos para a reflexão dali por diante. “O problema não é ficar velho. É ter sido jovem”, dirá o protagonista.

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Famoso por personagens memoráveis, Xavier surpreende logo de cara e, sem pudor, encara a nudez com absoluta naturalidade. Sua parceira de cena, famosa por suas curvas e trabalhos em novelas, aqui mergulha com a devida intensidade que a trama exige. Entre as curiosidades, na linha do “recordar é viver”, a trilha reserva uma audição de “Esses Moços, Pobres Moços”, de Lupicínio Rodrigues.

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Com pequenas doses de humor, de suspense, e diálogos inspirados, o roteiro de Galvão é provocativo, nas palavras (“Na vida você pode ter várias mulheres, mas só uma pode ter você”) e nas imagens. É o que acontece na sensorial viagem do personagem, em preto e branco, ao som do piano de Ed Cortes, ou numa linda e sensual cena na banheira, capaz de fazer um incrível paralelo entre os dedos “enrugados” pelo tempo e pela exposição excessiva na água. E como a velhice chega para todos, A Despedida não é somente uma história de morte, mas um belo recado para valorizar a vida.

38ª Mostra Internacional de Cinema São Paulo

A Despedida
Brasil – 2014
Direção: Marcelo Galvão
Duração: 1h30min
Elenco: Nelson Xavier, Juliana Paes, Amélia Bittencourt e Tereza Piffer.

Programação
18/10 – 21h00 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca I
21/10 – 21h45 – Cinecaixa Belas Artes – Sala SPcine
28/10 – 17h15 – Espaço Itaú de Cinema – Frei Caneca III

Avaliação Roberto Cunha

Nota 5