Dois Casamento$

Embate e Sedução num amálgama de mulheres de toda a história, como uma pintura antropofágica de Tarsila Amaral

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13 de julho de 2015

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O cineasta Luiz Rosemberg Filho talvez não seja um dos mais lembrados do período da Ditadura, apesar de ter sido um dos que mais sofreu com a censura, bem como Neville D’Almeida e Cláudio Cunha. Contudo, até porque se auto exilou na Europa por um tempo e sua obra acabou tendo lacunas temporais. Mesmo naquela época, foi graças ao reconhecimento de Glauber Rocha ao seu trabalho que o público passou a estudar e apreciar o seu estilo único, mestre da colagem de imagens exuberantes e cheias de sentido. Em meio a um novo resgate e inclusive Mostra Comemorativa de sua carreira organizada pela Caixa Cultural e também pelo cineasta Caví Borges, que seu mais novo filme, co-produzido pelo próprio Caví, “Dois Casamento$” chega ao circuito para novas gerações se redescobrirem o mestre.

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Na fita, duas mulheres vestidas de noivas parecem esperar pelo casamento de uma delas em uma sala vazia, como suspensa no espaço-tempo. Aos poucos, debatem sobre a expectativa do casamento em geral, especialmente pela ótica da mais velha, que já passou por isso, e reconhecem o quanto a sociedade é machista, esperando da figura da mulher um sinônimo de submissão. A própria simbologia de duas mulheres de gerações diferentes debatendo sobre a emancipação feminina e da luta pelos direitos equiparados aos dos homens remete a um espelho, como se uma fosse o reflexo da outra em épocas diferentes, se empoderando, e tirando uma à outra da mesmice. A mais velha faz a mais nova fumar, gritar, se despentear, despir…. E a mais nova dá esperança e renovação para quem poderia estar cansada de guerra.
Com um apuro estético impressionante, e domínio da direção de atores principalmente com a genial Patrícia Niedermeier, a mais velha, Rosemberg cria um jogo de cena, um misto de dança sensual e de xadrez em que a peça chave é o espectador. Não se engane aquele que assistir achando tratar-se apenas de uma bandeira feminista, não obstante o cineasta sempre ter enaltecido fortes figuras femininas.

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Muito pelo contrário, ao invés de reduzir o discurso a um mero antimachismo, e que duas mulheres juntas seriam mais felizes do que com um homem, a sedução e discussões entre as duas se transforma em um mútuo poder matriarcal, um amálgama de mulheres de toda a história, que, quase como uma pintura antropofágica de Tarsila Amaral, engolem uma à outra para criar uma Leviatã feminina gigante. Isso tudo num contraste de cenário estático, como um galpão vazio à la “Dogville”, com ângulos de câmera intimistas e libertadores, através de giros de 360 graus ao redor de danças e entrelaçamentos de vida. Verdadeira ode ao amor, à sensibilidade e alguns outros arquétipos devidos graças à contraparte de Adão: a sua Eva.

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4