Enquanto Somos Jovens

O espectador amadurecendo junto com o cineasta num caleidoscópio de gerações

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22 de junho de 2015

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Ser cinéfilo é às vezes se empolgar com um filme, procurar mais sobre seu diretor, e acompanhar toda sua carreira. Como se o espectador amadurecesse junto com os trabalhos do cineasta, e vice versa. Consegue-se ver claramente as mudanças na carreira, modismos, ou influências dos novos tempos enquanto eles acontecem ao redor. Esta modesta introdução se encaixa perfeitamente na filmografia de Noah Baumbach. A princípio um esmiuçador da psiquê familiar quase autobiográfica, e cada vez mais analisando as neuroses dos outsiders que não se encaixam facilmente, de dar orgulho a Woody Allen, seus sucessos e riscos perpassaram pela estreia mais notória e aclamada em “A Lula e a Baleia” até enfim o casamento entre sucesso de crítica e público com o alternativo “Frances Ha”.

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Agora quem diria, como uma ironia catártica, que seu novo projeto cresceu junto com os espectadores, em jovens adultos que não sabem direito como cresceram e o que fazer com isso, interpretados por Ben Stiller e Naomi Watts. Eles vão se espelhar em um casal de jovens, intensificando as neuroses dos adultos atuais, frente não só ao envelhecer, pior, a ficar obsoleto frente o avanço da tecnologia. Decorrendo assim o mais interessante elemento trabalhado aqui: as inversões de valores. O casal Stiller não quer ter filhos como todos os outros da sua idade, alienados por uma crise de meia idade precoce, pois as polaridades da idade se inverteram. Ainda mais com a tecnologia em jogo, muito bem utilizada como desvirtuadora moral. Os jovens querem brincar de ser adultos, mas sem se comprometer, e os computadores, redes sociais, câmeras digitais…..tudo isso abriu um leque de pseudo (ou não) amadurecimento que torna algumas decisões amorais.

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O mais interessante é que a pretensão do filme de se fazer uma homenagem ao cinema em si, a fazer filmes, na cara e coragem, torna-se despretensiosamente deliciosa, pois como Stiller é um documentarista desencantado, vê no seu reflexo jovem fonte de inspiração, e ainda agrega mais uma geração no contraste com o pai da esposa, o sogrão que já é um documentarista famoso. Como documentários analisam a realidade, o próprio filme em si vira um caleidoscópio de gerações. Para o cinema, para os personagens e para os espectadores, além disso quebrando a expectativa de clichês justamente devido aos diferentes olhares, como a notória corridinha final hollywoodiana que seria para a redenção, e, mais uma vez, frustra o previsível para passar outro tipo de lição de moral mais torpe: vale tudo pela arte?

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Tudo com gostinho de Woody Allen, jazz e soul andando nas ruas, acrescido de soft pop retrô, e conversas em mesas de bares e restaurantes, fotografia colorida e solar para dar à luz ao embate, amadurecendo junto com o espectador no olhar Baumbachiano, que bebe das influências mas tem voz própria. Vale ressaltar o destaque para a atuação do jovem Adam Driver (revelado na série “Girls” e do ótimo “Corações Famintos”) e da ascendente Naomi Watts, que frequentemente rouba a cena e até catalisa o já ótimo rendimento de Stiller para o drama (como na catártica cena do não-choro no jantar de homenagem ao sogro).

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4