Entrevista com Alberto Graça – “Beatriz”

Diretor conversa com o Almanaque sobre seu filme mais recente

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08 de outubro de 2015

Alberto Graça sempre encontra tempo para produzir obras de outros cineastas, mas se queixa de não conseguir reduzir o intervalo entre os filmes que dirige. Mais de uma década depois de “O dia da caça” (2000), Graça retomou a carreira com “Beatriz”, um dos destaques do cinema nacional no Festival do Rio 2015. Em meio aos inúmeros compromissos com a divulgação da obra, o diretor encontrou tempo na agenda para uma conversa por telefone com o Almanaque Virtual. Falou sobre seu novo filme, sobre as diferenças entre filmar na Europa e no Brasil e rebateu as críticas de que “Beatriz” seria um filme machista. O bate-papo exclusivo você, leitor do Almanaque, confere a seguir.

Alberto Graça, diretor de "Beatriz"

Alberto Graça, diretor de “Beatriz”

Almanaque Virtual: A sua produção como diretor é bastante esporádica. A que você atribui esse intervalo tão grande entre um filme e outro?

Alberto Graça: Não sei. Essa pergunta surge para mim ocasionalmente, mas não tem resposta. Eu tento encurtar esse intervalo, mas não consigo. Eu sinto que as pessoas às vezes não gostam das ideias que proponho e sofro um pouco com isso, mas há, também, fatores históricos. O fim da EMBRAFILME, por exemplo, e a mudança de orientação da ANCINE, que passou a se interessar mais por comédias e filmes com um apelo mais popular. E eu perco muito edital também. Acho que é hora de repensar isso, pois hoje temos mais recursos, especialmente por conta dessa ponte que existe entre o cinema e a TV. A ANCINE inclusive já despertou para essa nova realidade e ela é muito saudável para o cinema nacional, mas a maneira como os editais são selecionados ainda é um tanto precária, embora eu não saiba o que fazer para melhorar esse cenário.

AV: “Beatriz” é uma produção conjunta entre Brasil e Portugal. Esse tipo de iniciativa não é uma novidade, mas, em um contexto de crise econômica como o que vivemos atualmente, qual você acredita ser o papel das coproduções e de que maneira elas podem contribuir para o desenvolvimento do cinema nacional? Por outro lado, qual é o principal entrave e quais são as maiores dificuldades na realização de um filme produzido por dois países? Qual foi a sua maior dificuldade na realização de “Beatriz”?

AG: As coproduções foram inventadas com dois objetivos primordiais: reduzir custos e aumentar a abrangência das obras em termos de público. É uma resposta à hegemonia do cinema norte-americano e ajuda os países dando nacionalidade às obras que eles assinam conjuntamente. Em uma produção brasileira e espanhola, por exemplo, o filme é considerado espanhol na Espanha e brasileiro, no Brasil. Antes de ser espanhol, o filme ainda é europeu, o que é excelente. Então, a obra se beneficia de todos os benefícios que a legislação europeia conceda e, no Brasil, se beneficia dos incentivos nacionais. É um trabalho muito sério, firmado entre chancelarias. Há um compromisso muito forte, que vai além de simples questões estatais.

No caso de “Beatriz”, ele já foi pensado para ser uma coprodução desde o início. Eu queria mobilizar Espanha e Portugal em torno do filme e, por isso, escalei um elenco com atores dos dois países para papéis relevantes no roteiro. Isso gera o interesse dos países pela coprodução, algo que você não conseguiria, por exemplo, colocando um ator espanhol no papel de um motorista de taxi. Só que eu não conseguia cumprir os prazos que os produtores espanhóis estabeleciam por causa dos editais da ANCINE e acabei perdendo o apoio deles. Hoje seria mais fácil, mas na época a ANCINE era muito voltada para dentro. Não faz sentido que seja assim. Numa coprodução, em que o parceiro europeu já aceitou a proposta e já disponibilizou os recursos, esse controle deveria ser menos rígido, menos burocrático. É uma burocracia mais preocupada em controlar o que está sendo feito do que em ajudar na realização do projeto.

Eu só tive dificuldades no Brasil. Na Europa eu trabalhei com muita qualidade e com uma equipe bem menor do que as utilizadas por aqui. Filmei “Beatriz” lá com uma equipe de 34 técnicos. No Brasil, a minha equipe tem mais de 80 pessoas e isso encarece demais o filme. Quando fiz “A queda”, do Ruy Guerra, a minha equipe tinha 12 pessoas. Apesar dos avanços tecnológicos, isso se perdeu. É contraditório.

Outra coisa que precisa ser debatida é o mercado de filmes nacionais, em que obras maravilhosas têm um público ínfimo. Há um fracasso de mercado no país que simplesmente não é discutido. A maioria dos filmes só vai ser vista quando chegar à TV aberta. É preciso, de alguma forma, incentivar o exibidor para que ele vá atrás do filme nacional. E é preciso que os projetos sejam pensados com mais liberdade, sem a obrigação de agradar a alguém que vai analisa-lo puramente sob a ótica do mercado.

AV: Como surgiu o projeto “Beatriz”?

AG: “Beatriz” surge de uma reflexão minha sobre a sedução e a paixão. Eu pensei no Marcelo [nota do editor: personagem de Sérgio Guizé] com a seguinte pergunta: o que fascina um homem seduzido pela mulher e apaixonado pela literatura? E a história tomou um caminho que me apavorou. Eu até tentei começar a desenvolver outro projeto, mas há um momento em que o filme simplesmente quer ser feito. “Beatriz” foi se tornando cada vez mais crível e realizável e eu fui puxado para dentro dele. Curiosamente, eu optei por escrevê-lo com outros homens, todos nós tateando esse universo com muito cuidado e com muito medo, porque a história nos leva a afirmar a falência do amor romântico, uma ideia que é muito difícil para o universo feminino. Foi um aprendizado horroroso.

AV: Um tema muito forte em “Beatriz” é a finitude do amor. O fim do amor entre Beatriz e Marcelo, contudo, não decorre da falta do sentimento, mas da sua presença em excesso, doentia até. É muito difícil pensar no seu filme e não lembrar da obra de Nelson Rodrigues. De fato, há uma influência rodrigueana? Ela é proposital?

AG: Eu fico muito envaidecido com isso, pois o Nelson é o grande dramaturgo brasileiro, mas é curioso, pois “Beatriz” gira em torno do herói dramático, um herói que precisa da marginalidade para ganhar vida própria. E essa figura não está presente na obra de Nelson Rodrigues. “Beatriz” trata de duas pessoas dentro de uma relação e isso o aproxima de nós. Isso traz para a tela aquele sentido dramático dos heróis do cotidiano em uma história de amor que se perde. É diferente de Nelson Rodrigues.

AV: Parte do público tem tachado “Beatriz” de machista. O que você pensa disso?

AG: Eu fico surpreso. É absurdo. Se eu fizer um filme sobre a escravidão isso não significa que eu seja a favor disso. É uma visão plana, rasa. Se você aprofundar um pouco, vai ver que o filme vai ao encontro dela. Beatriz erra, mas encontra prazer no que faz. Um filme machista jamais admitiria isso. Um filme machista a faria sofrer. É assustador esse pensamento sombrio e conservador que vivemos atualmente, com jovens pedindo a volta da ditadura, por exemplo. Isso é muito perigoso e egoísta, além de desprezar o poder de compreensão do público. Exibi esse filme para 82 mulheres e apenas uma argumentou que ele era “falocrático”. Eu não acho que seja.

AV: Qual é a principal mensagem de “Beatriz”, no seu ponto de vista?

AG: É uma mensagem para as mulheres. É uma reflexão sobre o fim do amor romântico, uma ideia que massacra as mulheres há muito tempo, causando dor a elas. O cinema norte-americano lida com isso de uma forma bastante curiosa. Veja um filme de guerra, por exemplo. O herói casa, vai para a guerra e encontra a amada no final. Ele foge desse problema, não enfrenta o problema. “Casablanca” é um bom exemplo disso. No final, Rick [nota do editor: personagem de Humphrey Bogart] não fica com a mulher por quem ele é perdidamente apaixonado. Ele alega que precisa fazer algo muito importante e que ela não pode ir. O filme não diz o que é, mas fica claro que envolve um grande risco de vida. O filme suaviza a perda do amor transmitindo a ideia de esperança, de que há uma chance de eles se encontrarem. Essa matriz dominou o mundo e vem oprimindo homens e mulheres desde então.

AV: Existe a notícia de que “Beatriz” será transformado em livro. Existe o projeto?

AG: Não há um projeto nesse sentido, mas eu ficaria muito feliz se o filme gerasse um livro ou uma peça de teatro. Inclusive fica aqui o incentivo para que alguém o faça.

AV: Quando teremos um novo filme do diretor Alberto Graça?

AG: Eu gostaria muito de ter uma resposta pronta para essa pergunta, mas a verdade é que eu não sei. Sempre encontro tempo para produzir muita coisa, mas dirigir outro filme eu não sei quando vai acontecer. Esse ano finalizamos a produção de 4 longas: “Beatriz”, “Esperança” e “Yvone Kane”, uma coprodução com Portugal, dirigida por uma portuguesa muito sensível chamada Margarida Cardoso. Além dessas 3 obras de ficção, lançamos o documentário “500 – Os bebês roubados pela ditadura argentina”, feito em parceria com a Argentina e a França, um filme que retrata a monstruosidade que foi a ditadura naquele país. Apesar disso, ele é cheio de esperança.