Entrevista com Marina Person – “Califórnia”

Diretora conversa com o Almanaque sobre seu primeiro longa de ficção

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23 de outubro de 2015

Marina Person apresentou “Califórnia” no último Festival do Rio e seu filme foi uma grata surpresa entre as produções nacionais. Ambientada no início dos anos 1980, a obra retratou as angústias e as inseguranças de uma geração que iniciou a adolescência enquanto a AIDS explodia como a doença mais temida do mundo. A maratona de divulgação do filme segue, agora, para a capital paulista, onde ele fará parte da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Entre compromissos com a promoção do longa-metragem e o reencontro com os colegas dos tempos da MTV, que comemora agora, em outubro, 25 anos de estreia no Brasil, Marina Person conversou com o Almanaque Virtual ao telefone. Descontraída e animada com a repercussão de “Califórnia”, ela falou sobre o processo de elaboração do roteiro e de seleção do elenco, lembrou da época em que seu maior sonho era assistir à MTV e deu detalhes da negociação com o Ministério da Justiça para reduzir a classificação etária do filme. O leitor do Almanaque Virtual pode conferir abaixo como foi o bate-papo.

Marina Person

Marina Person

Almanaque Virtual: “Califórnia” é a sua estreia como diretora de ficção. Qual é a principal diferença entre fazer ficção e fazer um documentário?

Marina Person: São coisas completamente diferentes. Em primeiro lugar, tem o tipo de envolvimento com a coisa. Eu sempre tive mais proximidade com a ficção.

O documentário [Nota do redator: “Person”, de 2007] surgiu por uma necessidade minha de falar daquele assunto, mas não me vejo com as qualidades necessárias para ser uma documentarista.

A ficção tem um elemento que, para mim, é primordial, que é o trabalho com os atores. Eu gosto muito de trabalhar com eles e admiro demais o trabalho deles. Isso é algo que só a ficção proporciona.

Admiro imensamente quem faz documentários, mas a minha paixão é a ficção. Não significa que eu nunca mais vá fazer um documentário, mas a ideia de criar e desenvolver uma história me atrai mais. E, fazendo ficção, eu ainda posso contar histórias que, mesmo inventadas, reflitam a realidade.

AV: Além da direção, você também assina o roteiro do filme. Como surgiu o projeto? De onde veio a ideia?

MP: Era uma ideia minha que estava rabiscada em um caderninho há mais de 10 anos. Eu até revi esse caderninho outro dia… O projeto surge de uma tentativa de retratar como a minha geração fez a transição da infância para a adolescência e da adolescência para a vida adulta. O Brasil estava se abrindo politicamente após um longo período de ditadura, tinha a AIDS… Nós éramos os filhos da geração rebelde, da revolução sexual, e eu queria retratar como as meninas daquela época encaravam o início de uma vida sexual em um mundo no qual a AIDS aparecia como um fantasma. Nós curtíamos várias pessoas que morreram dessa doença. Eu quis contextualizar como era ser jovem nessa época.

E tem o lado da música também… Eu queria falar disso porque sempre fui muito ligada à música. Esse é, aliás, o motivo que me fez querer trabalhar na MTV. Lembro de ir para os Estados Unidos e, em vez de querer ir para a Disney como qualquer pessoa da minha idade, o que eu queria mesmo era assistir à MTV no hotel. Como assim, um canal que passava clipes 24h por dia? Fiquei super frustrada quando descobri que o hotel em que eu estava não tinha o canal…

Mas, voltando, a gente tinha uma cena musical muito legal. Muitas bandas ótimas apareceram naquele período: Legião, Titãs… E eu queria falar disso, porque tinha muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. “Califórnia” não tem nada que você possa olhar e dizer “eureca”, mas ele traz histórias que todos nós vivemos.

AV: “Califórnia” trata de um tema universal, que é o conturbado período da adolescência. O jovem de hoje, em termos de comportamento, talvez seja muito diferente do jovem de 30 anos atrás, mas as inseguranças permanecem, de certa forma, as mesmas. Por que você decidiu ambientar o seu filme na década de 1980?

MP: Porque essa era a minha geração. Eu comecei essa ideia com amigas minhas da época do colegial. A gente se encontrava semanalmente para discutir várias ideias, mas o foco ficava um tanto difuso porque todos os personagens tinham muitas histórias correndo paralelamente. Faltava um fio condutor. Até que resolvemos focar na Estela [nota do editor: personagem de Clara Gallo] e o roteiro finalmente saiu. “Califórnia” conta uma história que não tem nada de diferente de tantas outras, mas que é diferente por ser a história daquela geração.

AV: Quem acompanhava o seu trabalho na MTV sabe que o gosto musical da Estela é idêntico ao seu e há quem veja, inclusive, uma semelhança física entre você e a atriz Clara Gallo. Parece haver um consenso de que “Califórnia” tem um viés autobiográfico muito claro. Isso procede?

MP: Sim. Obviamente, tem muita coisa pessoal ali. Muitas daquelas situações aconteceram comigo ou com pessoas próximas. Mas eu não diria que ele é autobiográfico; prefiro dizer que ele tem elementos pessoais. Muitas coisas minhas, por exemplo, estão no JM [nota do editor: personagem de Caio Horowicz] e não na Estela. O gosto musical, por exemplo, está dividido entre os dois.

Outro exemplo: o JM personifica o que eu e as minhas amigas considerávamos o homem perfeito. Ele é bonito, misterioso, tem estilo, ouve as músicas certas, lê os livros certos… Eu era apaixonada por um menino que tinha os mesmos gostos do JM, mas que não era bonito como ele. O irmão de uma amiga minha, por outro lado, tinha aquele ar inalcançável do personagem, mas também não reunia todas as características. O JM é, na verdade, uma fusão das nossas paixões adolescentes.

AV: Você teve problemas com a classificação etária de “Califórnia”, certo? O que aconteceu e como isso foi contornado?

MP: O filme tem sexo, drogas e rock n’ roll, né? Por causa disso, ele acabou caindo numa daquelas portarias de classificação etária do Ministério da Justiça. Quem vê o filme, contudo, percebe que ele não é pesado. Argumentei que a minha geração, e eu pessoalmente, havia passado por aquilo tudo. Além disso, chamei atenção para um dado recente e preocupante: o número de jovens com o vírus HIV voltou a crescer. As “facilidades” que o tratamento trouxe fez com que as pessoas deixassem de se proteger. Então, eu quis alertar os jovens para a importância de ter esse cuidado. Felizmente, o Ministério da Justiça foi muito aberto ao diálogo e acatou todos os nossos argumentos. Foi muito legal da parte deles essa flexibilidade na análise do nosso pedido.

AV: As atuações de Clara Gallo e Caio Horowicz foram muito elogiadas. Caio inclusive recebeu o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival do Rio. Como foi o processo de seleção do elenco?

MP: A Virginia Cavendish, o Paulo Miklos e o Caio Blat não fizeram teste, mas a gente ensaiou muito. Já para o elenco jovem eu fiz muitos testes.

A Renata Kalman tem um banco de dados enorme de atores jovens e, de cara, ela me apresentou o Caio. Eu fiquei apaixonada, mas ele já estava em outro projeto e não ia rolar. Então, deixei para lá.

Só que o filme foi adiado por dois meses e, quando comecei a testar atores para o elenco, o Caio apareceu. Eu tive um arrepio… Ele era tudo o que eu tinha imaginado para o papel e arrasou no teste. Não dava para mais ninguém. Eu já tinha testado muita gente para o papel do JM, mas quando ele chegou os testes acabaram na hora.

A Clara, ao contrário, é muito diferente da Estela. Ela tinha uns dreadlocks… um visual muito louco, muito moderno. Era difícil imaginar uma menina dos anos 1980 com aquele visual. Eu fiquei encantada com ela, mas era aquela coisa de curiosidade, sabe? E o físico dela era perfeito para viver uma menina de 15 anos. Resolvi arriscar. Chamei para fazer um novo teste e ela foi super bem. Como a Clara nunca tinha feito nada, nem cinema nem televisão nem nada, a gente fez uma preparação bem intensa. Ela nunca estudou muito teatro, interpretação, mas é muito intuitiva e conseguiu passar uma segurança enorme no papel. Então, acabamos escolhendo a Clara para ser a Estela e foi um grande acerto.

AV: Algum novo projeto encaminhado?

MP: Sim. Como a parceria com o Caio e Clara deu muito certo, estou desenvolvendo dois filmes para fazer com eles. Um para cada um, mas ainda está sendo amadurecido. Estamos muito no início.