Entrevista com Marjorie Estiano – “Beatriz”

Atriz conversa com o Almanaque Virtual sobre o filme de Alberto Graça

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15 de outubro de 2015

Marjorie Estiano foi um dos destaques do cinema brasileiro no Festival do Rio 2015 interpretando Beatriz, personagem que dá nome ao filme dirigido por Alberto Graça. Em meio aos diversos compromissos de sua carreira atribulada, a atriz conversou por email com o Almanaque. Falou sobre o projeto do filme e as dificuldades que encontrou para desenvolver seu papel, e disse ver com bons olhos a controvérsia em torno do suposto machismo de que a obra é acusada. O bate-papo pode ser lido a seguir.

Marjorie Estiano no papel de Beatriz

Marjorie Estiano no papel de Beatriz

Almanaque Virtual: Como surgiu o convite para participar de “Beatriz” e o que fez você aceitá-lo?

Marjorie Estiano: Cibele Santa-Cruz (produtora de elenco) me ligou. Disse que estava fazendo um teste para esta personagem e me explicou como era o filme. Perguntou se me interessava em ler e se estaria disponível nas datas. Pedi pra me mandar o roteiro, li e fiquei muito interessada. Achei o roteiro bastante instigante, o tema, a maneira que era desenvolvido, passava longe da obviedade. Levantar tantas questões ao mesmo tempo. Desde a perda do controle em uma relação, passando pela criação de umlivro e dentro disso também… o que é original ou plágio, liberdade sexual, erotismo, ética… O arco dramático da personagem era exuberante. Um roteiro que seguia um caminho diferente dos mais frequentemente percorridos atualmente no cinema nacional. E fiz o teste.

AV: Em 2014 você participou da série de curtas “Eu que amo tanto”, no Fantástico, da Rede Globo. Assim como “Beatriz”, aquela série girava em torno da finitude do amor e do comportamento excessivo, por vezes doentio, que isso provoca em algumas pessoas. O que você trouxe daquela interpretação para a composição da Beatriz? Em que a Beatriz é diferente daquela personagem?

ME: As duas estórias se cruzam na entrega desmedida, a qual faz muito mais mal que bem. Angélica amava de uma maneira descontrolada, era completamente refém desse amor e de tudo que veio no pacote do descontrole dele, o ciúme, o ódio… Sua doença e sua cura estavam materializadas na namorada. Acho que, embora se cruzem, as personagens têm setas apontadas para lados opostos. Angélica tem a seta para forae Beatriz, a seta para dentro. Beatriz tem um planejamento para a sua vida. Com um objetivo muito claro, vai na conquista dele, faz isso por ela. Em nenhum momento deixa de ser uma atitude egoísta e manipuladora. Não a vejo embarcando nesse jogo para o marido, para realizar o sonho do marido, ou nem mesmo por amor, ou talvez também por amor e suas formas estranhas de manifestação mas, com certeza, não passa por algo generoso e altruísta. Ela não se importaria de ter o marido insatisfeito, infeliz profissionalmente, desde que tivesse o que queria, desde que o mantivesse sob o controle dela. Beatriz queria um marido e um filho. Quando embarcou no projeto do livro foi tirando inicialmente proveito dessa condição, descobrindo uma outra relação com o seu corpo, com o sexo, com o erotismo. Porém foi perdendo o controle do marido, o que fez aquilo tudo não ter mais sentido. Sem
oriente, ela foi para o fundo.

AV: Qual foi o seu maior desafio nesse filme?

ME: Acho que o desafio tem uma relação direta com as dificuldades e estas são proporcionais às suas limitações, ou seja, difícil é ir além de onde já esteve. Acho que isso resume o desafio. A construção e a execução de uma personagem com o arco dramático tão grande e com características que eu sequer tinha referência interna.

AV: Parte do público tem tachado “Beatriz” de machista. O que você pensa disso?

ME: Acho um grande acerto do filme se provoca controvérsia. Me interessaria em saber mais sobre essa perspectiva. Creio que ela venha, talvez, se esse espectador tomar o partido de Beatriz, acreditando que ela inocentemente e subservientemente adentrou nesse caminho. Então, aí ela seria vítima de Marcelo, que aparentemente a domina com chantagens, exibindo agressividade. Acho extremamente sedutor que o espectador possa ser conduzido para esse caminho também… onde a forma talvez modifique o conteúdo. A agressividade, na forma, é exuberante e muitas vezes nos deixa confusos sobre quem está agredindo quem. Acho que o filme pode ser entendido como machista também e isso, como todo o resto, não tem controle.

AV: Alberto Graça resume “Beatriz” como um estudo sobre a falência do amor romântico e diz que essa ideia é muito difícil para o universo feminino. Você concorda? Qual é a principal mensagem de “Beatriz” no seu ponto de vista?

ME: Não acredito na falência irrestrita do amor romântico ou na extinção dele. Acho que culturalmente o amor romântico ainda está muito presente, entretanto, vejo o número de adeptos diminuir entre as mulheres. O que acredito ser muito rico tanto para o homem quanto para a mulher. A independência, a identidade da mulher está cooperando para que esse amor romântico seja fruto de sua personalidade, de seus desejos, e não de uma imposição cultural. Não creio em uma mensagem objetiva, vejo debate, acho que a função do Beatriz é promover questionamentos.

AV: Quais são seus próximos trabalhos?

ME: Vários próximos… filmes, série, música. Por enquanto, no processo. Assim que eles estiverem bem próximos, falamos mais.