Entrevista: Djin Sganzerla fala sobre “Ralé” e outros trabalhos deste ano

Filme-homenagem dirigido por sua mãe Helena Ignez, além do Projeto Tela Brilhadora "O Prefeito", e coprodução Brasil-Portugal com "Ornamento e Crime"

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07 de maio de 2016

Numa conversa irreverente e franca sobre sua carreira, sobre os quatro filmes que estrela nesta 39ª Mostra de SP, e sobre trabalhar com a família igualmente de nomes importantes para a história do cinema, Djin Sganzerla abriu o coração para o Almanaque Virtual, sempre apaixonada por fazer arte e cultura no Brasil e lá fora.

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Em primeiro lugar, claro, sua primeira atuação em um longa metragem, logo sob a batuta do mítico pai cineasta, ora saudoso Rogério Sganzerla, em “O Signo do Caos” de 2003, que está sendo reexibido na Mostra. Com extrema alegria e sempre um prazer, Djin reconhece o carinho que a Mostra e seus organizadores Leon Cakoff e Renata de Almeida sempre tiveram com a obra de seu pai:

“Ainda mais pelo prestígio de o filme ser projetado no Vão Livre do MASP, símbolo da cidade e da arte. Nesta obra, meu pai homenageava um de seus ídolos confessos, Orson Welles, referenciando um documentário que ele teria realizado sobre o Brasil, inspirado nos anos em que Welles passou no país e que ressuscitaram nele o prazer pelo cinema e pela vida.”

Já em outro filme de prestígio a ser exibido nesta 39ª Mostra, “Ralé”, também com Djin estrelando no elenco, esta homenagem a seu pai continua, seja por ser dirigido e atuado por Helena Ignez, viúva de Rogério e mãe de Djin, seja por trazer novas significações ao estilo que Sganzerla consagrou de cinema novismo, marginal, de baixo orçamento e com uma urgência criativa e livre:

“É um filme dentro do filme, numa história filmada por dois jovens cineastas mirins homenageando uma das maiores obras de meu pai, “Copacabana Mon amour”, estrelado por minha mãe (Helena Ignez). É forte a fala sobre liberdade artística, sexual, criativa e etc… Como uma das personagens cita a famosa frase: “Somos todas vadias”, o que procura combater o preconceito contra a liberdade das mulheres, da Amazônia, dos índios, do nosso espaço. E gera uma extrema amorosidade, pois não fala de nenhum desses sinais com violência nem imposição, e sim com carinho aos personagens, compreendendo-os. Mesmo o público leigo, que talvez não traga esta bagagem cultural toda que é homenageada ali, poderá sair tocado.
Em uma sessão, uma advogada que chorou chegou até mim para dizer o quanto saiu chacoalhada da sessão. Tira do estado neutro e dá uma rasteira, mas com muita amorosidade. Faz refletir. Sem falar no elenco, como o Ney (Matogrosso) que está incrível, a Simone (Spoladore) fantástica, a Juiza de paz transexual interpretada sensivelmente por André Guerreiro Lopes para a cena do casamento homoafetivo, Roberto Alencar como um dançarino maravilhoso…”

Inclusive, vale ressaltar em “Ralé” que Roberto Alencar e Ney Matogrosso formam um casal em cena, e há esta belíssima cena do casamento deles simbolizando um incrível ato de amor universal. Noutra cena, Ney e Roberto realizam o sensível ato humano de limpar um amigo de idade que suja as calças (na pele de Zé Celso Martinez), evocando a aceitação da velhice, da solidariedade frente a vulnerabilidade do próximo, e da amizade edificante sem fronteiras.

Já sobre o Projeto dos quatro filmes produzidos pela Tela Brilhadora homenageando a época de ouro de trabalhos como os de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane, dos quais participa de “O Prefeito” de Bruno Safadi, Djin reconhece os ótimos resultados colhidos desde a primeira parceria com o diretor, “Meu nome é Dindi”, com fotografia realizada por Lula Carvalho:

“Me lembro de “Meu Nome é Dindi como um trabalho de muita entrega, com poucos dias de ensaio, em planos-sequências de 12 minutos em película, então havia necessidade de muita precisão. Com este filme recebi o prêmio de melhor atriz em São Paulo e em Portugal. E Bruno teve desde sempre muito amor pelas obras de meu pai e de Júlio Bressane e Cia daquela época. E ele também sempre esteve próximo às obras da Belair. Por isso, já tínhamos uma comunicação  especial entre nós. Um olhar e confiança absoluta, numa relação  direta e macia. Então, quando Bruno me chamou para “O Prefeito”, eu estava realizando um espetáculo sobre Silvia Plath chamado “Ilhada Em Mim”, e até tive de preparar uma substituta para respeitar o cronograma de filmagens. A peça estava em SP e filmamos no Rio, mas acabou que deu tudo certo e nem precisei ser substituída. Nizo Neto, que interpreta “O Prefeito”, é uma ótima pessoa e muito generoso como ator. Entendeu rapidamente a proposta e flui perfeitamente. A Tela Brilhadora é um pouco como a Belair: Poucas pessoas, com bastante experimentação visual. E o próprio Bruno já era assistente de direção de Júlio Bressane há um bom tempo. Estão inclusive rodando algo juntos agora mesmo.”

Quando perguntada em relação à diferença entre a direção de atores de seu pai desde o início de sua carreira, e depois com toda a experiência acumulada no teatro e nas obras recentes dirigidas no cinema por sua mãe Helena, ou mesmo nas de Bruno, Djin é direta:

“Acho que todas se comunicam. A direção de meu pai, da Belair e até da Tela Brilhadora abrem espaço para o ator-criador. Nossa leitura. Quando fiz “O Signo do Caos” com meu pai, eu já possuía experiência  teatral. Mesmo com um papel pequeno em “O Signo do Caos”, meu pai me tratou como se eu fosse experiente, um papel de Lolita que era e não era eu. Ele contribuía com que algo muito especial nosso estivesse também presente no papel. E minha mãe (Helena Ignez) também deixa muita liberdade para o ator. Muito na personagem de Nástia foi minha criação: Cabelo, Roupas, ou mesmo ter a sensibilidade de saber que algumas palavras ficariam mais macias na boca de minha personagem do que outras falas, então adaptávamos. Esta Nástia é muito minha e de mais ninguém. Já em “O Prefeito”, minha personagem é uma Alma errante. Mulher irreal, não-concreta, uma ilusão, talvez a própria morte, etérea. Ela não caminha sobre a terra, então tive de treinar um andar que flutuasse, com um mistério envolvente, perigosa.

Sobre o 4º filme que Djin atua na 39ª Mostra de SP, “Ornamento e Crime”, produção Portuguesa de Rodrigo Areias, foi uma experiência incrível. Como faço uma brasileira que mora lá em Portugal, Rodrigo me deu muita liberdade para criar o sotaque de minhas falas. É um filme noir de gângster, e interpreto uma femme fatale aparentemente doce, mas que pode ser uma raposa. Há referências de “A Dama de Shangai”, com uma fotografia incrível do português Jorge Quintela. Apesar de Areias ser bastante jovem, ele atuou já com muita experiência como produtor, especialmente quando a pequena cidade portuguesa de Guimarães foi eleita a Capital da cultura da União Europeia alguns anos atrás. Ele realizou produções europeias na época de nomes de peso como Godard e Manoel de Oliveira. E a própria Mostra de SP já homenageou Portugal e estas produções de Guimarães em edição passada. Já havíamos nos conhecido em Festivais anteriores em Portugal, até porque eu já havia recebido prêmio de melhor atriz lá. Mas foi quando Rodrigo (Areias) assistiu ao filme “Luz nas Trevas” de minha mãe e que conta com meu nome no elenco, que ele me convidou para trabalhar neste projeto “Ornamento e Crime”, coprodução entre Portugal e Brasil.

Já em relação aos próximos projetos, Djin adianta:

“Em primeiro lugar há um convite se formalizando de um diretor do Rio, mas sobre o qual ainda não posso falar. Noutro projeto, conseguimos aprovação de um Edital para o próximo filme de minha mãe, “A Moça do Calendário”, marcado para começar filmagens a partir do fim do semestre. E também tenho planos pro Teatro, minha paixão forte. A Peça “Ilhada em mim – Silvia Plath”, que já ganhou o prêmio de melhor direção, deve viajar para outros estados do Brasil, já estando agora em BH / MG, e ano que vem deve chegar ao Rio. Além de mais três espetáculos, sendo um com texto de Sartre, “A Prostituta Respeitosa”, além de um projeto pessoal, “Tchekov é um cogumelo?” da nossa Cia Luscofusco, composta por minha mãe também e André Guerreiro Lopes, que sempre nos dirige (e que atuou também em “Luz nas Trevas” como filho do bandido da luz vermelha) além de que co-protagonizará “A Moça do Calendário” de Helena, com roteiro ainda inédito de meu pai.”