A Entrevista

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05 de fevereiro de 2015

Resumiu-se a um lugar-comum a fortuna crítica brasileira de “A entrevista” (“The interview”), de Evan Goldberg e Seth Rogen, sem que se avaliasse com a devida atenção as nuanças narrativas e abrasivas do novo longa-metragem da dupla responsável por “É o fim” (2013). O comentário em coro foi “Muito barulho por nada”, referindo-se à polêmica que a produção de US$ 42 milhões gerou ao provocar um veto (seguido de ameaça) do governo da Coreia do Norte, por sua menção ao governante local: Kim Jong-um. O falatório geral é que não há, no filme de Goldberg e Rogen, mordacidade à altura do ódio despertado entre os norte-coreanos, a ponto de ameaçar ataques aos EUA e represálias digitais ao estúdio Sony Pictures. Sedentos por uma agressão pesada a Kim Jong-um, muitos resenhistas se frustraram frente ao escárnio mais polido dos diretores que, mesmo nos momentos mais escatológicos, não se afastam de um formato clássico de comédia de aventuras, similar à linhagem dos anos 1980. Mas é justamente nessa conexão com a estética Eighties que o longa alcança eficiência e transcendência, apresentando-se como uma diversão obrigatória.

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“A entrevista” é a releitura de uma linhagem cinematográfica típica da Era Ploc, expressa em sucessos como “Os espiões que entraram numa fria” (1985), de John Landis. A diferença é que Rogen e James Franco, os protagonistas do filme recém-lançado e arranhado da Sony, tem uma virulência nos diálogos e nas posturas pessoais que superam, e muito, o jeitão mais bonachão de  Chevy Chase e Dan Aykroyd, os astros do longa de Landis. Por isso, “A entrevista” preserva sua alma Ploc embalsamada sob o formol da agressividade à la anos 2010, aos quais Franco e Rogen se reportam como duo porta-voz de anarquia.

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Repetindo a química testada e aprovada em “Segurando as pontas” (2008), os dois voltam aqui nos papéis do apresentador Dave Skylark (Franco, no auge de sua vitalidade cômica) e do produtor de TV Aaron Rapaport (Rogen). É no dia a dia de um programa de fofocas de celebridades que a parceria dos dois se afina, noite após noite, até que eles recebem sinal verde da Coreia do Norte para entrevistar o líder local, Kim Jong-un, em seu território, e ouvir dele opiniões acerca da histeria atômica de sua pátria. Mas ás vésperas da viagem, a CIA recruta os dois – mesmo ciente do quão patetas eles são – para matar o governante asiático, e por fim ao seu jugo nuclear. Essa premissa é fruto de um movimento cada vez mais forte de Hollywood – iniciado  sub-repticiamente em 2002, com “007 – Um novo dia para morrer”, de Lee Tamahori – para fazer da Coreia do Norte a nova União Soviética ou o Novo Oriente Médio, ou seja, um novo ninho de vilões.

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Mesmo associado a essa premissa de pura xenofobia,  “A entrevista” dribla o racismo e ri dele, para expor sua violência, expondo a histeria americana em farejar vilões em territórios de outras línguas. Essa (auto)crítica se faz vigorosa na composição propositalmente ridícula das figuras de Skylark e Rapaport. Eles substituem o heroísmo da competência e da violência, característico dos filmes hollywoodianos de intervencionismo em solo internacional (vide “Rambo”, “Braddock”) por heróis da incompetência e da trapalhada. Há uma piada atrás da outra, num ritmo de gargalhada contínuo, embalado numa fotografia (de Brandon Trost), que flerta com o estilo pós-moderno dos videoclipes. É um longa de solidez visual e de eficiência humorísticas nos diálogos.

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A realidade da Coreia do Norte não vai mudar por causa de “A entrevista”. Mas o cinema fica mais engraçado e menos careta com a existência dele.

Avaliação Rodrigo Fonseca

Nota 3