O Exterminador do Futuro: Gênesis

Quem diria que a fonte da juventude seria envelhecer...

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02 de julho de 2015

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2015 será um ano para se lembrar. Nunca tantas franquias famosas do cinema foram ressuscitadas, ou, no termo apropriado, rebootadas. Do novo cult paradigmático “Mad Max” ao escapismo divertido de “Jurassic World”, e no fim do ano a maior de todos os tempos: “Star Wars”. Eis que o ex-Conan fisiculturista e ex-governador da Califórnia na vida real, o Sr. Arnold Schwarzenegger, decidiu mirar todo o seu inegável carisma de volta no personagem que melhor o imortalizou: “O Exterminador do Futuro”. Tendo os dois exemplares iniciais ajudado a definir o gênero ficção de ação, e o terceiro da trilogia quase estragado isso, acabou cabendo a uma boa quarta sequência em 2009 sem querer alienar os fãs originais, simplesmente porque esquecia todos os elementos originários da série, incluindo o próprio Arnold. Agora tecnicamente no 5º, “Gênesis” (“Terminator: Genisys”, 2015, de Alan Taylor, do ótimo “Thor 2: O Mundo Sombrio”), apesar de não necessariamente ser necessário ver os anteriores para entender esta história, e de não se colocar como sequência de nenhum deles, o reboot, ou melhor, recomeço, serviu para renovar tudo o que deu certo nos dois primeiros.

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O pulo do gato, quer dizer, do Exterminador, quem diria, foi justamente envelhecer. Independente de todas as qualidades técnicas obrigatórias hoje em dia, como efeitos especiais e sonoros de ponta, imersão de adrenalina e momentos marcantes, talvez o maior mérito deste filme, em 2015, seja ironicamente o tema da própria franquia: o tempo. A trama do primeiro e de todos em seguida sempre se trata de alguém que viaja do futuro para o passado a fim de mudar a história, mas acabar fazendo parte dela. E o 5º filme conseguiu fazer exatamente isso, numa metalinguagem inesperada que depende diretamente das saudades em reviver uma emoção de 30 anos atrás. Sim, o espectador vira catalisador de um filme que dá certo porque chegou na hora, local e forma certos para embalar uma nostalgia deliciosa. Não uma cópia do que foi feito antes, e sim uma homenagem. Coisa relativa, já que o 3º também fazia isso com menos potência e mais canastrices e não deu certo. Será que o que deu certo teria sido a combinação de fatores como elenco, diretor, roteiro etc, sem que 30 anos de saudosismo influenciassem nossos olhos?

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Mas não é só de repetição que vive a história. Sarah Connor está de volta, mesmo que a atriz Linda Hamilton que a imortalizou nos cinemas não tenha mais querido saber da personagem desde seu polêmico divórcio na vida real do diretor James Cameron, responsável inicial pela franquia e hoje em dia apenas como seu distante criador. Foi chamada uma das atrizes-sensação de maior vulto atual, Emilia Clarke, por seu papel Khaleesi em “Game of Thrones”, que sobressai sobre um elenco de suporte razoável, como os ligeiramente insossos Jai Courtney e Jason Clarke, além de uma participação subaproveitada do ótimo oscarizado J. K. Simmons e do ‘Doctor Who’ Matt Smith como um personagem surpresa. Para impedir o simples repeteco da história do primeiro filme, onde John Connor, líder da resistência humana contra as máquinas, envia seu braço direito Kyle Reese para evitar que sua mãe Sarah Connor seja morta antes de lhe dar à luz, os roteiristas tiveram que explicar como um Schwarzenegger mais velho ainda poderia ser o Exterminador. Então, inseriram o querido personagem numa nova viagem no tempo, quando Sarah ainda era criança, e, portanto, a pele orgânica sobre a máquina envelheceu camuflando-o melhor, e ele pôde treiná-la como uma figura paterna, humanizando-o e surpreendendo Kyle Reese que esperava uma jovem indefesa e alheia aos acontecimentos do futuro… Mas o roteiro não para aí, podendo complicar um pouco para os espectadores casuais e escapistas, ou mesmo contrariar os fãs mais xiitas: é inserida uma nova viagem no tempo dentro das próprias viagens, para trazer a trama da década de 1980 do original para 2017…, provavelmente no intuito de aumentar a identificação.

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O que pode desagradar os fãs mais hardcore é o fato de viagens no tempo serem um assunto muito sensível na ficção científica, e sempre existiram duas correntes: a que a viagem não altera o passado, e sim se incorpora à sua essência indissociável, corrente esta seguida pelos Exterminadores; e a corrente oposta de que a viagem pode mudar o passado, defendida por filmes como “De Volta para O Futuro”. Agora pela primeira vez um Exterminador se afilia à segunda hipótese, até para contar uma nova história original. Alguns podem torcer o nariz, mas o fato é que com Arnold e Emilia segurando as rédeas e até aumentando a química com Jai Courtney, eles conseguem uma montanha russa cheinha de homenagens a todos os filmes anteriores, até mesmo o 3º e o 4º, porém principalmente aos dois iniciais: vide as sequências de ação, reproduzindo ou reciclando gestos, ângulos de câmera e cenas clássicas, como a invasão à delegacia no primeiro e ao hospital no segundo filme. E um Schwarzenegger que pode hoje, bem mais velho, olhar para si próprio mais novo como num espelho invertido, e ser um robô grisalho e enrugado com ainda mais vigor narrativo, aludindo às teorias das ‘máquinas humanas’ dos escritores Isaac Asimov e Philip K. Dick. Uma baita catarse de vida ímpar. Quem diria que quanto mais velho, mais jovem Arnold nos faria sentir…

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Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4