Falando com Deuses

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06 de novembro de 2014

Guillermo Arriaga (“Amores brutos”, “21 gramas” e “Babel”) é diretor e roteirista do primeiro filme da série “Heartbeats of the world” (que pretende abordar também temas como política, sexo e substâncias psicotrópicas). Em “Words With Gods” (no original), Arriaga alinhava nove curta-metragens onde grandes nomes do cinema mundial atual abordam o tema da religiosidade. Assunto por si só bastante espinhoso, principalmente em tempos onde reina o “politicamente correto”. Em geral, projetos como esse tendem a não serem bem-sucedidos, vide o recente episódio da franquia de filmes em homenagem às cidades: “Rio, eu te amo” (2014). Porém, “Falando com Deuses” é uma grata surpresa, pois em sua grande parte vemos seguimentos extremamente interessantes e satisfatórios.

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Este projeto não é um filme que visa discutir as religiões e suas singularidades e/ou pontos de interseção, uma vez que os curtas não dialogam entre si, por mais que Arriaga pretenda, mesmo que de forma sutil, costurá-lo com uma espécie de linearidade. Não é à toa que o primeiro seguimento fala sobre o nascimento, em uma cena epopeica bastante bonita esteticamente. Uma mulher, sozinha no deserto, está prestes a dar à luz e a acompanhamos nesse momento de dor e satisfação que culminaria numa espécie de fertilização do mundo, interpretada de forma visceral pela protagonista. Na sequência, vemos o ótimo curta de Héctor Babenco, no qual Chico Diaz interpreta um homem destruído pela morte de seu filho ainda bebê que encontra conforto ao cuidar de um ganso e recebe a paz espiritual após conhecer a umbanda.

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Mira Nair derrapa ao mostrar o hinduísmo de forma simplória, mesmo querendo abordar o problema das castas na Índia. Isso se deve, em grande parte, pelo elenco de atuações rasas. Ainda na esteira dos curtas pouco satisfatórios temos o de Amos Gitai, que num plano sequência extremamente poluído visual e sonoramente mistura um texto corrido com inúmeras imagens ocorrendo ao fundo onde mixa população e exercito no qual o espectador não sabe se lê o texto da legenda ou acompanha as imagens. Já o japonês Hideo Nakata aborda o luto de um homem que perdeu a família por conta do Tsunami ocorrido em Fukushima e que encontra amparo no budismo.

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Salvo, os três segmentos apontados acima que são pouco satisfatórios mas longe de serem ruins, merece destaque o do espanhol Álex de La Iglesia que surpreendentemente nos brinda com um divertido momento de descontração ao abordar a “confissão” (título deste segmento, inclusive) de um matador que ao fugir da cena do crime acaba conhecendo um taxista que o leva ao pai moribundo rendendo uma cena antológica para representar o catolicismo. O iraniano Bahman Ghobadi nos presenteia com uma inusitada história onde dois gêmeos siameses presos pela cabeça expõem seus conflitos entre fé e pecado representando o islamismo.

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Por fim, para fechar o longa-metragem, Arriaga expõe seu ótimo curta que representa o ateísmo. Escolha interessante para fechar o projeto, já que é um filme sobre Conversas com Deuses e ele estaria encerrando este diálogo justamente com o pensamento que nega a sua existência. Com uma cena extremamente bonita e poética e que lembra um dos momentos marcantes do filme pernambucano “O som ao redor” (2012) vemos escorrer na tela uma chuva de sangue que simboliza a transformação e redenção dos homens e seus Deuses.

 

Festival do Rio 2014 – Mostra Panorama do Cinema Mundial

Falando com Deuses (Words with Gods)

México, 2014. 133 min.

De Guillermo Arriaga, Héctor Babenco, Bahman Ghobadi, Amos Gitai, Emir Kusturica, Mira Nair, Hideo Nakata, Warwick Thornton, Álex de La Iglesia.

Com Demián Bichir, Emir Kusturica, Sarai Givaty, Emilio Echevarría, Inma Cuesta, Yilmaz Erdogan, Yaël Abecassis, Makiko Watanabe, Miranda Tapsell, Masatoshi Nagase, Jorge A. Jimenez, Pépon Nieto, Juan Fernández, Paco Sagarzazu, Mariano Venancio, Kazuya Takahashi.

Avaliação Samantha Brasil

Nota 3