Feliz por ser Diferente

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03 de outubro de 2014

Dar voz a homens gays de terceira idade; esse é o objetivo do documentário “Feliz por ser Diferente”, de Gianni Amelio. Partindo dos depoimentos de homossexuais de diversas regiões da Itália e de diferentes classes sociais, o diretor monta um painel esclarecedor da vida de pessoas que descobriram sua sexualidade em tempos difíceis e do impacto que essa descoberta lhes causou.

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“Felice chi è Diverso” (no original) apresenta vários personagens com estilos de vida, experiências e dificuldades próprias que, apesar disso, revelam uma unidade de sentimento: a vontade de ser feliz. Do soldado de Mussolini que precisava esconder a própria homossexualidade, ao casal feliz que contou com a compreensão familiar, passando, ainda, pelo homem que casou com uma lésbica para manter as aparências e outro, que preferia a promiscuidade, o filme se presta a ouvir as histórias dessas pessoas, revelando que seus anseios e angústias são, afinal, idênticos ao de qualquer um, seja ele heterossexual ou não.

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Em sua maioria, esses homens contaram com o amor da mãe, “que sempre sabe”, para enfrentar e/ou suportar a intolerância do pai e a incompreensão da sociedade, presente na analogia que um dos depoentes faz logo nos primeiros minutos do longa: “uma cruz que se carrega no mundo da classe-média”. A partir disso, Amelio busca estabelecer a ideia de que o mundo heterossexual precisa fazer um mea culpa e reconhecer que onde existe o homem, existirá, também, o homossexual, afastando a ideia fascista – infelizmente tão em voga – de que a árvore que não dá frutos deve ser cortada.

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O resultado é um documentário sensível e delicado, mas que não deixa de ser duro e contundente ao evidenciar que todas aquelas dificuldades vividas pelos protagonistas nas décadas de 1950 e 1960 estão, ainda hoje, presentes em todos os cantos, causando um sofrimento igualmente uniforme àqueles que ousam não ser como os outros.

Em um momento em que a chamada “cura gay” vira plataforma política para grupos retrógrados, o filme de Amelio cumpre o importantíssimo papel de evidenciar que o ser humano, capaz de várias proezas nos mais diversos campos do conhecimento, é incapaz de conhecer-se a si mesmo e aceitar que a diversidade não ofende nem degrada a humanidade. Muito pelo contrário, é inerente a ela.

 

Festival do Rio 2014 – Filme Doc

Feliz por ser Diferente (Felice chi è Diverso)

Itália, 2014, 97 minutos.

Direção: Gianni Amelio

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 4