Força Maior

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04 de março de 2015

Vencedor do prêmio do júri na mostra Un Certain Regard do Festival de Cannes 2014, “Força Maior”, dirigido por Ruben Östlund, é filme cujo formato evoca uma pujança de sentimentos tão bem explorada em tempos áureos do cinema. No filme em questão, percebem-se ecos da habilidade que fez de Ingmar Bergman um cineasta capaz de imergir na alma humana, de revirá-la a ponto de expor o intangível das sensações sempre imperativas em nosso interior. Em processo cirúrgico, Ruben Östlund, por uma feliz coincidência conterrâneo de Bergman, expõe as entranhas de uma família prestes a desmoronar. A câmera mais invade do que propriamente filma, deixando as angústias tão visíveis quanto o corpo dos personagens. Por falar em localidade, aqui o ambiente é inserido a serviço da história contada, algo que já vimos antes, só para citar um único exemplo de um único diretor, no Michelangelo Antonioni de “O Deserto Vermelho” (1964). Em “Força Maior”, a frieza do clima vai além das sensações puramente físicas, uma condição que muito bem se associa ao distanciamento das relações. Em “O Deserto Vermelho”, é o cenário industrial, a magnitude massacrante da fábrica e sua constante atividade, que intensifica as perturbações de espírito de Giuliana (Monica Vitti), tornando-as ainda mais evidentes.

forçaLogo no início do filme, a preparação de uma foto em família surge estranhamente constrangedora.  Sob as instruções do fotógrafo, estão o marido Tomas (Johannes Kuhnke), a mulher Ebba (Lisa Loven Kongsli), e os dois filhos em um anunciado ensaio de felicidade. Uma fraqueza que as fotos, quando reveladas, não deixam transparecer. A folga de cinco dias com todos reunidos parece um remédio para o chefe de família workaholic. O que ninguém esperava era a atitude dele, um ato que Freud decerto explica, diante de uma situação de aparente perigo. Durante o almoço em um restaurante nas montanhas cobertas de neve, uma avalanche desce para o pânico de todos. As reações ao incidente, que não passa de um susto, são contrárias: Ebba não arreda o pé e protege os filhos, já Tomas foge apavorado. Assim forma-se o cerne do dilema que norteia todo o desconforto do filme. Na verdade, mesmo que vidas não tenham sido postas em risco, os envolvidos não saem ilesos. Como agir depois desse impulso de sobrevivência? O filme “Planeta Solitário” (2011) da diretora Julia Loktev, vale lembrar, fez uso dessa mesma questão de autopreservação, ainda que de forma mais sucinta.

força3Ao agir dessa maneira, Tomas tem o seu caráter questionado pela mulher, uma atitude motivada pela decepção. Pensando friamente, é muito fácil, em uma situação de segurança, prever a própria tranquilidade e um total controle de si em um contexto de ameaça à vida. No caso da fuga de Tomas, será que ele simplesmente obedeceu a um instinto primitivo, ou mostrou seu individualismo quando ninguém estava olhando? Fica a pergunta, perturbadora. Enquanto os laços familiares se esgarçam, a exposição dos personagens aumenta. Essa é uma sensação muito forte em “Força Maior”: a exibição quase cruel de intimidades dilaceradas. Uma constatação que remete à falta de privacidade, outro ponto de tensão. Existe um olhar misterioso sempre à espreita, de um curioso funcionário do hotel. Aliás, nós mesmos, na posição de espectadores diante dessa “janela indiscreta”, somos também invasores do espaço alheio disfarçado de realidade enquanto durar o filme. Inclusive, cinema é isso, entre tantos outros significados. É arte do voyeurismo.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5
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