Frank

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03 de outubro de 2014

O novo filme protagonizado por Michael Fassbender vai dar o que falar, pois quem espera ver o ator apenas por conta de seus atributos físicos provavelmente irá se decepcionar. Fassbender interpreta Frank, o líder de uma banda de nome inusitado e de difícil pronúncia (“Soronprfbs”) que usa uma cabeça gigante de papelão. A cabeça por si só já é um elemento de reflexão, haja vista que tem olhos enormes e sem qualquer expressão facial. Lembra uma caricatura de desenho animado infantil, só que totalmente estática. O interessantíssimo filme indie digido por Lenny Abrahamson, fala do percurso dessa banda após a entrada de um novo membro, Jon (Domhnall Gleeson, de Questão de Tempo), que muda completamente a perspectiva de Frank diante do seu público. Jon é um rapaz sem talento, mas que sonha em ver as músicas que compõe fazerem sucesso. Ao ser convidado por um dos integrantes da banda após uma tentativa de suicídio do tecladista, ele larga seu emprego e segue viagem em turnê com os integrantes da Soronprfbs. Muitas confusões, intrigas e inveja serão vividas pelos personagens que lidam com egos inflados gerando uma reflexão apropriada acerca do universo do show business. A personagem de principal conflito com Jon é Clara (Maggie Gyllenhaal) que pretende que Frank mantenha sua essência e não se renda aos apelos do mercantilismo lobotomizante no qual Jon pretende inseri-lo por só visar lucro e fama.frank_squareApesar de ter elementos e momentos cômicos, o filme é um drama provavelmente inspirado no personagem Frank Sidebottom, que foi criação do músico e comediante Christopher Sievey nas décadas de 80 e 90. Apesar da enorme cabeça apática usada por Frank, Fassbender faz uma de suas melhores performances, pois tem que dar vida e emoção usando apenas sua voz e expressões corporais e faz isso de forma magistral. Conseguimos perceber todos os seus sentimentos sem nunca ver seu rosto. Em um momento divertido de conversa entre Jon e Frank, o personagem de Gleeson, fascinado e intrigado com o fato de Frank não tirar nunca a cabeça gigante (nem mesmo para comer, dormir ou tomar banho), o pede que fale como seria sua expressão facial ao interagir com as pessoas. Frank acaba achando que isso pode ser útil a fim de ser melhor compreendido e passa a adotar o costume dizendo ao final de suas falas frases hilárias como “sorriso de satisfação” ou “sorriso de agradecimento”.Frank (2014) trailer (Screengrab)Satisfatoriamente, o roteiro de Jon Ronson e Peter Straughan não cai na armadilha de ser apenas mais um filme indie e cult, com letras de músicas originais que falam sobre os sentimentos do protagonista e com personagens que se travestem com estilos descolados. O filme vai além disso, construindo personagens complexos, produzindo um som experimental bastante bizarro mas apropriado ao estilo de vida dos integrantes outsiders da banda. O isolamento da banda longe da cidade grande em dicotomia com o seu retorno para se apresentar em um festival nos EUA nos remete àquela velha discussão sobre o lugar de pertencimento de cada indivíduo no mundo. Reflete-se ainda acerca das dificuldades de comunicabilidade em um universo de relações instantâneas como o vivido nas redes sociais, sobre o processo de criação artística e o fascínio que esse ambiente provoca nas pessoas, pertencimento de grupo, inveja, poder, fama, identidade, aparências. Sendo assim, pode-se depreender desse breve relato que o filme é riquíssimo em meandros e camadas que vão sendo descortinados ao longo dos seus 95 minutos de duração.

Mostra Panorama do Cinema Mundial
Frank (Idem)
Irlanda / Reino Unido, 2013, 95 min
Direção: Lenny Abrahamson
Com: Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Domhnall Gleeson