Garota Exemplar

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03 de outubro de 2014

Ao longo de 22 anos de cinema, nos quais lançou nove longas-metragens e uma série de NetFlix (“House of Cards”) com uma cinemática incomum à televisão, o americano David Andrew Leo Fincher construiu uma estética própria – das mais sólidas hoje em Hollywood – na qual o suspense é sua matéria-prima. Em sua estréia, “Alien 3” (1992), ele foi ao espaço, na companhia de um ET gotejante de ácido, e subverteu as convenções da sci-fi clássica para construir um thriller intergalático no qual o medo era mais impressionante que a imensidão cósmica. É que o medo liberta demônios de um universo mais sombrio do que o firmamento da ficção científica: o universo da alma, no qual o que mais interessa ao cineasta nascido em Denver há 52 anos é observar os riscos do descontrole. De “Seven” (1995) até “A rede social” (2010), passando pela obra-prima “Clube da luta” (1999), o cineasta narra histórias nas quais variáveis violentas desequilibram sistemas de relação pautados por um controle cartesiano. São variáveis ora fantásticas (“O curioso caso de Benjamin Button”), ora psicóticas (“Zodíaco”), mas sempre narradas com o esgarçamento máximo de padrões morais. Em “Garota exemplar” (“Gone girl”), décimo longa do cineasta, que estréia nesta quinta-feira, a vaidade, pecado capital favorito de Fincher, sedimenta o castelo de mentiras esculpido em torno do sumiço de uma jovem escritora.

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Toneladas de hipocrisia se amontoam sobre as ruas de Cape Girardeau, no Missouri, onde moram Nick Dunne (Ben Affleck) e sua mulher, Amy (Rosamund Pike), uma autora de livros infanto-juvenis de enorme êxito no mercado editorial. A infelicidade rege o cotidiano dos dois, embora poucos a percebam, pois, sob a beleza e o charme dos Dunne, reside uma suposta perfeição capaz de ofuscar a percepção de crises a olhos estrangeiros. Ela vive um dia a dia de dona de casa frustrada e ele abre um bar em sociedade com a irmã, Margo (Carrie Coon, de uma sensualidade indisfarçável). Tudo na morada do casal Dunne deles fede a falência, a cansaço, a desgaste. Esse fedor atinge a fragrância do desespero quando Amy some, misteriosamente, deixando como rastro de sua desaparição uma mesa de vidro estilhaçada e nenhuma hipótese de resposta visível. É aí que a vaidade – “o” objeto de estudo de Fincher – toma seu prumo e se faz ver: diante da já citada perfeição, Nick se vê obrigado a interpretar publicamente o papel do marido desolado com a perda da mulher. E, nessa interpretação de Nick, apoiado na canastrice cada vez mais saborosa de Ben Affleck, o cineasta exercita sua argúcia, na análise do comportamento humano, e nos mostra o quanto um homem vaidoso, acuado em sua própria autoafirmação, é capaz de se boicotar e trair o circo que armou. Nick ri quando não deve e demonstra satisfação onde deveria expor um olhar de luto, o que vai levantando as suspeitas da Polícia, representada pela detetive Rhonda (a ótima Kim Dickens) e o implicante oficial Jim (Patrick Fugit). E, como tudo naquele quinhão do Missouri vive de aparências, o casado do desparacimento de Amy, vira, da noite para o dia um picadeiro midiático, mobilizando a imprensa – em especial, programas sensacionalistas de entrevistas -, e fazendo do suposto calvário de Nick um assunto de interesse nacional nos EUA.

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O termo “suposto” aqui, deve ser relativizado: embora Nick já não amasse mais Amy, ele se preocupa com o que possa ter acontecido com ela. Há em seu coração um carinho sincero de esposo que respeita o passivo afetivo que teve com a mulher. E, na obrigação de encarnar o sofrimento romântico de quem perdeu a mulher amada, Nick acaba se tornando o próprio personagem que interpreta e sofre de verdade, quer Amy de volta, torna-se o genro ideal de seus sogros. Mas isso dura apenas 30 dos 149 fugazes minutos do longa, que, de sequência em sequência, corre pela tela com a velocidade de um trem-bala, ágil como se fosse um curta e não um longa-metragem. Da primeira meia-hora para frente, a Polícia vai virando o jogo e começa a olhar Nick por outros prismas, tentando encontrar nele um culpado – uma vez que uma mulher tão perfeita quanto Amy não teria outros desafetos possíveis que pudessem ser responsabilizados por ela sumir. Assim sendo, um cerco se arma e os pequenos delitos de Nick na vida a dois (incluindo seu affair com uma Lolita de 20 aninhos) ganham a tela conforme o diário de Amy nos vai sendo apresentado por Fincher, numa edição que corre em paralelo à narrativa principal, como se fosse uma segunda voz. Eis que, nesse movimento, Fincher faz do escpectador seu refém: convencidos do afeto de Nick por Amy e cientes de suas fragilidades (estas capazes de transcender sua perfeição), é impossível para nós julgá-lo. Brota aquele sentimento quase pueril de “Ele não! Ele não, por favor!”, mais comum aos suspenses de Hitchcock do que aos thrilers contemporâneo. E aí a dúvida reina. Até que…

Frise as reticências acima, pois nada mais deve ser dito da trama daí pra diante. O mínimo de descrição pode estragar o prazer de como essa trama evolui. Por isso, segure a língua nos dentes.

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Saiba apenas que ao longo de quase duas horas e meia, Fincher faz Rosamund Pike, uma figura até hoje insossa em Hollywood apesar de seus dotes físicos afrodisíacos, passar para um outro patamar: o das grandes atrizes. Numa atuação antológica, dina de Oscar, Rosamund mostra como a vaidade – sempre ela, né, Fincher – pode chocar ovos de um dinossauro chamado loucura. Resta saber quem é o louco: Nick, ela ou a América que produz padrões morais capazes de levar pessoas ao sufocamento. E, sob uma pilha de incertezas, roendo as unhas, o público por vezes custa a perceber a artesania do cineasta, que movimenta a câmera com uma elegância só inerente aos grandes mestres de seu gênero (De Palma, Chabrol, o próprio Hitchcock) e encobrir fatos que estão na nossa cara com uma elipse simples, com um desfocar de lente.

“Garota exemplar” é uma aula de cinema, que nos deixa como dever de casa repensar a vida a dois e suas ciladas e rever nossos conceitos sobre a ação da mídia. As apresentadoras vividas por Sela Ward e Missi Pile (perfeita) ressaltam o lado abutre da TV frente a uma tragédia familiar. E, a partir do desempenho das duas, temos um dado novo na obra de Fincher: um cineasta que sempre primou pelo Eros e o Tânatos dos homens, operando como um analista das angústias masculinas, revela aqui uma habilidade seminal de falar da condição feminina contemporânea, apoiado em grandes atrizes, capazes de construir personagens tridimensionais. E, com elas, sobretudo Rosamund, Fincher nos lega um forte candidato ao posto de melhor filme de um ano abrilhantado por “O Lobo de Wall Street”, de Scorsese, e o “Ninfomaníaca” em dose dupla de Lars Von Trier. Fincher alcançou seu apogeu. 

Festival do Rio 2014 – Panorama do Cinema Mundial

Garota Exemplar (Gone Girl)

Estados Unidos, 2014, 145 minutos.

Direção: David Fincher

Com: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris e Tyler Perry.