#garotas

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11 de novembro de 2015

Na direção de “#garotas”, a intenção do diretor Alex Medeiros é bem clara ― mais valem os espinhos do que as flores na sua retratação nua e crua da juventude. Para embarcar na proposta, que deixa de lado qualquer resquício de romantismo, é necessário livrar o olhar do filtro machista, do preconceito que rotula a mulher de acordo com o seu comportamento. Beth (Giovana Echeverria), Milena (Barbara França) e Carina (Jeyce Valente) são três amigas habituadas à diversão imoderada regada a sexo sem compromisso. O diálogo entre as três é o menos polido possível, mas de propósito, para reproduzir a intimidade das garotas desbocadas que estão pouco se lixando para as boas maneiras. Contudo, não dá para ignorar a reação certeira desse espectador que não consegue se livrar do disparo de julgamento ― o linguajar das jovens e a forma despudorada com a qual descrevem aventuras sexuais vão desagradar. Acontece que “#garotas”, como o próprio filme deixa bem explícito, não é movido por objetivos politicamente corretos.

A estrutura narrativa do longa não obedece aos métodos da linearidade. Duas festas de Réveillon, uma pertencente ao tempo atual e outra celebrada um ano antes, intercalam-se para mostrar a mudança drástica de comportamento de Beth no espaço de 365 dias. Após passar um ano em Nova York com a família, ela retorna ao Brasil irreconhecível, ajuizada como nunca. Carina e Milena, contrariadas com a caretice adquirida, impedem que Beth celebre o ano novo com a família e improvisam uma farra, com direito a muito álcool e convidados dispostos a “quebrar tudo”, na própria casa dela. Ainda bem que em nenhum momento “#garotas” sucumbe ao tom de repreensão ― a punição após o hedonismo ― no discurso que confronta constantemente a irresponsabilidade e a tomada de consciência, duas faces distintas da personagem mais representativa. No piscar de um plano, Beth surge louca com as amigas na noitada em uma comemoração desregrada de virada de ano quando, em mais um salto no tempo, ela aparece atormentada, tentando em vão manter o controle da bagunça que se desenrola bem debaixo do seu nariz. Carina e Milena, que em nada mudaram, encontrarão na maturidade de Beth um conforto quando a bebedeira falar mais alto.

Na transgressão que o filme demonstra em seu relato mordaz de uma fase da vida nem tão áurea, há uma irregularidade que não faz nada bem ao conjunto ― o ranço que associa a comédia ao universo de curtição juvenil. Nesse contexto, há dois personagens completamente descartáveis, Bernardo (Raphael Logam) e Mateus (Erik Vesch), e passagens que deveriam ser expurgadas no corte final. É válido ressaltar que a inesperada seriedade de Beth é devidamente justificada em um desenlace que comprova a eficácia do formato narrativo. “#garotas” deveria parar por aí, mas uma espécie de compilação com os melhores momentos das três amigas, influência negativa dos videoclipes, é um happy ending que muito destoa da ousadia do argumento nada puritano.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 3