Garotas

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06 de outubro de 2014

O terceiro filme de Céline Sciamma teve uma grande expectativa do público, por ter dirigido o famoso “Lírios D’Água” que fala de duas meninas que se encontram no subúrbio de Paris, e tem uma aventura amorosa, além de “Tomboy”; uma garota que se passa por um menino e se descobre lésbica. Junto com esses, vem o desconhecido curta “Pauline”, uma das produções de um projeto chamado “5 filmes contra homofobia”, apresentado pelo Ministério da Saúde e dos Esportes da França, que se encontra apenas em canais de vídeo da internet. O elenco é composto por não-atores e passou pelo consagrado Festival de Cannes 2014, que em francês se chama “Band de Filles”, e foi adaptado como “Girlhood” para o inglês.

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“Garotas” é protagonizada por Karidja Touré, que representa Mariene: uma menina de 16 anos com um irmão violento, a mãe faxineira, e a irmã do meio, que ajuda a cuidar da mais nova enquanto ninguém está em casa. Não tem muitos estímulos para continuar estudando, além do seu bairro ser rodeado de homens que a intimidam. Todos são negros e a cultura da ostentação através das roupas, e principalmente dos tênis de marca reinam. Em sua vida insossa e infeliz, ao descobrir que como aluna ela não tem mais muitas opções, ela esbarra em uma gangue de três garotas marrentas: Lady, Fily e Adiatou. Essa gangue problemática adota Mariene como uma integrante, que vai aos poucos assumindo a identidade do bando, participando de brigas, furtos e festas entre elas. Isso se torna algo libertador para a tímida Mariene, que aborda sua paixão secreta, não atende mais as ligações do irmão, e toma para si o mote de Lady: “Eu posso fazer o que quiser”. Até o momento em que nota que não é capaz de manter a vida da família despedaçada, e nem de continuar seguindo a filosofia irresponsável de suas amigas, ela decide tomar uma decisão. Ela foge de casa e vai para uma realidade ainda mais perigosa, desde que dê a independência e a estabilidade que tanto queria. Porém, o caminho mais fácil nem sempre é a melhor opção.

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A trama é constantemente excitante, usufruindo de uma trilha sonora totalmente atual, que vai desde o pop até a música eletrônica, e repentinos cortes com telas pretas (e o som ao fundo), que são como capítulos de um livro, depois das cenas mais impactantes. A representação e a presença cênica de Karidja Touré é tão sensível e intensa, que nada precisa ser dito para que se entenda o que a personagem está sentindo, e o seu olhar é a maior estrela do filme, que transmite tudo que a diretora quer dizer em apenas um piscar de olhos. As três amigas aquelas que regem o caminho de Mariene, á ponto do espectador também querer fazer parte desse bando e dessa boemia, e que se envolve de uma maneira na criação de Céline Sciamma que é algo quase sem volta. As imagens de uma França nem um pouco idealizada, o contraste do subúrbio e da parte capitalista e tecnológica de Paris se chocam, e se corta o paradigma do estereótipo do francês, que seria sempre caucasiano, fino e esnobe. A carga emocional do filme é tanta, que é inimaginável o sofrimento que se passa em apenas uma adolescente, em um roteiro que vai como uma montanha-russa e ao mesmo tempo como uma brisa de outono até o limite de Mariene. O final deixa aquele rastro de estado de transe que é provocado pelo filme, com a angústia da personagem e como a realidade não é fácil para todos. Essa obra-prima é feita não só para pessoas que suportam uma grande avalanche de emoções, mas para garotas fortes. Não vê-lo, é querer esquecer que a vida é feita de escolhas, e permanece uma eterna batalha dentro de si.

Festival do Rio 2014 – Mostra Panorama do Cinema Mundial

Título: “Garotas” (“Bande de Filles”)

França, 2014 – 112m

Direção: Céline Sciamma

Elenco: Karidja Touré, Assa Sylla, Lindsay Kamaroh, Marietou Touré

Avaliação Raquel Messina Cukierman

Nota 5
  • Henrique Roque

    ”garota que se passa por um menino e se descobre lésbica” ? o filme se trata sobre transexualidade infantil, o gênero e não a sexualidade que só vem ao decorrer do filme….