Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte

Clássico da Literatura Realista é trazido à contemporâneidade para inverter as polaridades de poder entre o homem e a mulher

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12 de agosto de 2015

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“Gemma Bovery – A Vida Imita a Arte” de Anne Fontaine é a adaptação cinematográfica francesa de uma Graphic Novel (ou seja, romance em quadrinhos) escrita por Posy Simmonds que, por sua vez, transpõe o famoso livro “Madame Bovary” de Gustave Flaubert para os tempos modernos através da história de um padeiro fissurado em literatura clássica, cuja nova vizinha é quase homônima à protagonista do livro. Com esta associação, ele começa a projetar a história da heroína trágica para a recém-chegada moradora do bairro, de modo a tentar evitar que ela tenha o mesmo triste destino.

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Na verdade, enquanto no original há contornos dramáticos e contextualizados com a castração social e ideológica da mulher no século XIX,  no texto adaptado ela é agora emancipada e cheia de escolhas, as quais talvez ainda sejam estigmatizadas por estereótipos antigos de uma visão residual machista. Tanto que o narrador que lê os diários dela é um homem, assim como todos os outros que disputam por ela, como o marido, o ex, e o jovem amante. Então a ironia do destino é que a mesma liberdade que lhe dá escolhas mis, também aprisiona pela culpa pessoal e censura social. Poderia existir a escolha realmente livre? Ou ela seria intoxicante demais? Os autores do século XIX abordaram o realismo numa revisão da tragédia grega e depois renascentista, onde o “castigo social” servia de crítica às limitações das conquistas de direitos. Eles eram visionários, pois foram os primeiros a libertar a escolha da mulher em livros como Anna Karenina, Miss Julie e Madame Bovary, ainda que sua tragicidade inerente mostrasse que a sociedade não estivesse pronta ainda.

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Já a HQ é moderna e irônica, e, para quem leu, sabe que trabalha muito bem o arquétipo da mulher múltipla, e transfere a tal culpa retrógrada para o homem, mostrando que são eles que não sabem lidar direito com a independente figura feminina. Eis que alguns detalhes faltaram em sua adaptação cinematográfica, como a ênfase na construção da autoestima, como no fato de a protagonista na HQ perder peso e ficar em forma, ou mesmo ampliando no filme a interação presencial com ela do personagem-narrador interpretado pelo ótimo Fabrice Luchini, para reprisar o carisma de enxerido que ele já enaltecera no filme “Dentro de Casa”. O tom da produção então ganha contorno mais de comédia do que dramático; mais leve do que aprofundado; tirando leite de pedra da geralmente mediana Gemma Arterton, cujo sotaque inglês em meio aos franceses se torna gracioso ao invés de canastra. Ademais, acertada as analogias com a padaria e a confecção de pães com sementes variadas, cuja maturação está diretamente ligada à maturidade das personagens, que, unido ao visual provinciano e mise-en-scène esquemática dão um gostinho de teatro de costumes, principalmente do ponto de vista do padeiro.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 4