Grace de Mônaco

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31 de outubro de 2015

É incrível a desproporção que se instala entre “Piaf – Um Hino ao Amor” (2007) e “Grace de Mônaco”, este último não exatamente uma cinebiografia, ambos dirigidos por Olivier Dahan. O primeiro filme, remontando a trajetória de Edith Piaf, uma voz basilar da chanson française, fundamentou-se em qualidades dignas para reverenciar a grandiosidade da cantora, a começar pela presença incomensurável da atriz Marion Cottilard, revivendo até nas entranhas a intérprete de “Non, je ne regrette rien”. Exibido como filme de abertura do 67º Festival de Cannes, “Grace de Mônaco” começou a carreira com o pé esquerdo, estimulando na Croisette o pior tipo de repercussão – o escancarado descontentamento da crítica. Na verdade, a receita começou a desandar antes, quando o produtor Harvey Weinstein desentendeu-se com Dahan por reprovar o corte final. Por último e não menos importante, até a família real de Mônaco manifestou-se quanto à versão dos fatos exibidos em “Grace de Mônaco”. Em comunicado oficial, a realeza classificou a película como uma farsa em função de metas lucrativas. O certo é que a produção, como em um ato premonitório, cuidou de seu álibi ao afirmar, antes do alavancar da narrativa, que “Grace de Mônaco” trata-se de uma ficção baseada em fatos reais.

De toda a fragilidade do conjunto é possível resgatar uma importante lição: o apuro visual, incapaz de contribuir na construção de relevantes símbolos, é um perigo de proporções catastróficas. Pompa inflada sujeita à explosão, e só. No início da projeção, a imagem de Grace Kelly (Nicole Kidman) de frente para a tela é adiada. A câmera a acompanha, mas de costas, até que seja necessário filmá-la como todos esperam. Um recurso que, antes de estilístico, parece irônico diante da incompatibilidade física (não incapacidade) da atriz na interpretação de uma das mais icônicas estrelas do cinema americano. Grace Kelly é uma personalidade insólita, abandonou a carreira em Hollywood para virar Alteza ao casar-se com o Príncipe Rainier III (interpretado no longa por Tim Roth), um flerte que começou em grande estilo, no Festival de Cannes. Princesa fora das telas, Grace manteve-se rainha no imaginário do cineasta Alfred Hitchcock, conhecido por sua obsessão pelas louras de seu cinema. Vale salientar que a relação de Hitch com Kelly, no período da busca do diretor pela protagonista do filme “Marnie, Confissões de um Ladra” (1964), surge pouco convincente na tela por puro fracasso, uma constatação totalmente desvinculada do questionamento da veracidade dos fatos.

Diante do descaso do filme com essa singularidade essencial da atriz, vale repisar – o mais importante é o luxo fugaz das imagens que desfilam belas, mas pouco atraentes já que ali inexiste um conteúdo que cative. A nobre abnegação de Grace Kelly, que deixou de lado a vocação de atriz para vestir a pele de princesa em um contexto de contendas políticas entre o marido e o então presidente da França, Charles de Gaulle (André Penvern), é diminuída em virtude do destaque de um choque de realidade já corriqueiro. Aquela velha história das aparências que enganam. É por conta dessa perspectiva que a rotina de Kelly, nos domínios do principado monegasco, reduz-se a um calvário enfadonho, que cansa o espectador mais paciente. A esterilidade presente em cada fotograma faz de “Grace de Mônaco” um filme incrível, no pior sentido da palavra.

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 2