Hipócrates

Longa de Thomas Lilti versa sobre assuntos do universo médico pouco discutidos no cinema

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14 de novembro de 2015

Amadurecer não é fácil, ainda mais quando se escolhe uma profissão com uma carga de responsabilidade tão pesada quanto medicina. É isto o que logo constata o jovem Benjamin Barois (Vincent Lacoste) ao ingressar no programa de estágio do hospital onde seu pai (Jacques Gamblin) é chefe. Para ele, nada acontece como o esperado: seu pai quase não está presente para acompanhar sua evolução, seu parceiro residente Abdel (Reda Kateb), um médico e imigrante argelino, possui muito mais experiência que ele e a responsabilidade começa a pesar sobre seus frágeis ombros. Tem início o que Benjamin achava que seria uma carreira brilhante, até que se dá conta de que a teoria é bem mais fácil que a prática e que a vida adulta é cheia de complicações.

“Hipócrates” é o retrato cru da realidade cotidiana dos médicos em Paris, com uma enorme carga empática de todos os que exercem a profissão ao redor do mundo. O roteiro de Thomas Lilti (também diretor do longa) e Pierre Chosson aborda a dificuldade de se trabalhar em hospitais públicos devido à falta de infraestrutura e à característica sobrecarga de trabalho que levam a erros médicos, além de discutir questões bastante pertinentes sobre a eutanásia, a humanização do atendimento versus o corporativismo nos hospitais (bem pontuadas através das graves e até fatais consequências da escassez de recursos), a burocracia enfrentada diariamente pelos profissionais de saúde e a difícil situação dos médicos estrangeiros, que são rebaixados por serem imigrantes. Lilti, que curiosamente também é médico, encontra um bom equilíbrio entre aprofundamento e distanciamento em “Hippocrate” (no original): ao mesmo tempo que o cineasta possui enorme conhecimento de causa, ele se põe no lugar do espectador leigo que não compreende os inquietantes bastidores dos hospitais, obtendo um filme intenso com toques cômicos como resultado.

O dúbio protagonista Benjamin (que sofre com uma fraca atuação de Lacoste) fica dividido entre o que acha certo e o que foi doutrinado a fazer – obedecer a ordens superiores sem muitos questionamentos. Aliás, é o personagem Abdel Rezzak (o ótimo Reda Kateb, premiado com o Cesar de melhor ator coadjuvante), o colega imigrante, injustamente estagiário, de Benjamin que o faz começar a refletir sobre o sistema ao qual os médicos – e consequentemente os pacientes – estão submetidos. Com 7 indicações ao Cesar, “Hipócrates” trata de um assunto urgente e universal, que costuma ser encoberto para que a culpa recaia sempre sobre a classe médica. O filme de encerramento da Semana da Crítica do Festival de Cannes 2014 é necessário, e Lilti soube muito bem como trazer à luz diferentes temas concernentes à medicina que estavam até então sem muita representatividade no cinema.

 

 

Hipócrates (Hippocrate)

França – 2014. 102 minutos.

Direção: Thomas Lilti

Com: Vincent Lacoste, Reda Kateb, Jacques Gamblin, Marianne Denicourt e Carole Franck.

Avaliação Raíssa Rossi

Nota 4