Homem Comum

A dádiva do cinema de ressuscitar os mortos e fazer as pazes com os vivos.

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24 de setembro de 2015

Existem filmes onde uma cena paradigmática pode mudar todo o conceito assistido até aquele momento. Imagine então um documentário que lide com a linha tênue entre a vida e a morte, de modo a brincar de alquimista metafísico atemporal? Como assim? Pois bem. Simples. Só um filme pode trazer vida eterna para aqueles que já se foram e parecer que ainda estão entre nós. Esta é a brincadeira de “Homem Comum” de Carlos Nader. Por mais de uma década ele seguiu a vida de um homem comum e sua família para estudar suas próprias angústias existenciais refletidas na simplicidade com a qual aquele homem igualmente as enfrentava, mesmo que não com as mesmas palavras.

Tudo começou com um documentário onde Nader planejava pegar carona com vários caminhoneiros e, de perguntas casuais sobre coisas inofensivas, ele passaria a questionar sobre Deus e a vida de modo profundo. Talvez esperasse que a parte leiga dos caminhoneiros e a complexidade das perguntas desarmasse os entrevistados, como outrora o saudoso mestre Eduardo Coutinho ministrava. Porém, o que ele obteve de um deles foi além. Graças a isso, foi convidado a filmar na intimidade de sua casa. Anos depois, quando uma grande perda acomete sua família, o patriarca convoca Nader de novo. Neste momento, naturalmente, sem forçar, o cinema acaba deixando de ser arte e vira um amálgama de duas vidas: do sujeito e seu objeto, que também é sujeito; Do olhar e do que está sendo olhado; do filme e da vida real; numa fusão com poder de cura e transformação. E o dom de ressuscitar os mortos e fazer as pazes com os vivos.

A vida de Nader e do caminhoneiro se tornam tão intrínsecas através dos anos que alguns exageros narrativos, o excesso de humildade e naturalismo seco, a falta de filtro na forma e conteúdo, talvez encantado demais com o poder do que capturara, podem ser perdoados em prol de algo maior. Uma sessão de terapia de décadas, inclusive com as gerações seguintes de filha e neto, condensadas em menos de uma hora e trinta minutos. Fulminantes. Mas que, caso o espectador se aventure nesta cumplicidade na tela, vai presenciar o poder que o cinema pode alcançar, para além das forças da vida e da morte.

Avaliação Filippo Pitanga

Nota 3