Homem Irracional

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27 de agosto de 2015

A atitude mórbida para dar vazão a desejos egoístas funcionou como ponto de partida de ensaios da moral humana em filmes como “Crimes e Pecados” (1989), “Ponto Final: Match Point” (2005) e “O Sonho de Cassandra” (2007), realizações do insaciável Woody Allen. Esses dois últimos longas, em especial, são donos de uma ousadia que transparece na atmosfera obscura, logo diferenciada do formato caracterizado pelo alívio cômico muito bem proporcionado por Allen. Não é novidade, a autoria fortemente identificável é uma constante na filmografia do cineasta, o tipo de artista que se tornou referência de si mesmo. Mantendo a admirável meta de um filme por ano, Allen entra mais uma vez em cartaz com “Homem Irracional”, longa que emprega boa carga de mistério, mas com o selo de autenticidade do diretor nova-iorquino. Sua nova produção é marcada por um primeiro e proveitoso contato com o protagonista Joaquin Phoenix. O trabalho do ator com Allen sucede outras grandes parcerias com realizadores do quilate de James Gray, Spike Jonze e Paul Thomas Anderson. A tal morbidez citada no início do texto não está lá por acaso, em “Homem Irracional” esse elemento ramifica-se nas motivações do personagem de Phoenix até ultrapassar, de forma perturbadora, o puro desejo egoísta.

IrrationalProfessor de filosofia recém incluso no quadro de docentes da Braylin College, Abe Lucas (Joaquin Phoenix), mesmo com o psicológico abalado e a aparência descuidada, ainda preserva certo charme que instiga a frustrada Rita (Parker Posey), apressadinha nos hilários jogos de sedução, e a aluna prodígio Jill (Emma Stone tem tudo para se tornar queridinha do diretor após a primeira parceria em “Magia ao Luar” – 2014). Joaquin Phoenix, mais um ator que parece reproduzir o próprio Allen com fácil desenvoltura ― tal qual Owen Wilson em “Meia-Noite em Paris” (2011) ― brilha no auge do sarcasmo ao dizer em sala de aula, na pele do cético Abe Lucas, que a verborragia filosófica não passa de “masturbação mental”, intransponível para a realidade. “Homem Irracional” é, na verdade, um filme de estrutura híbrida, que expõe sem qualquer hesitação os dois lados de uma mesma moeda. Todo um arcabouço montado para ampliar a complexidade moral de Abe Lucas ― de modo claro, o filme passa da despretensão inicial para a gravidade existencialista, sem prescindir das pinceladas de bom humor tão características do cineasta.

Irrational4O ponto de virada do longa é uma conversa alheia que desperta o interesse de Abe e Jill, a essa altura já unidos por uma amizade colorida. Os dois interrompem o papo para captar o que se passa na mesa de trás ― o apelo desesperado de uma mãe envolvida em um caso de custódia infantil, decisão que está no martelo de um juiz de caráter duvidoso. Em um lampejo, Abe Lucas redescobre o sentido da vida quando ouve as lamentações da desconhecida. Ele conclui que o resgate da própria existência consiste no ato de matar o outro, o juiz desonesto. Para Abe, eliminá-lo é fazer uma bondade para a mãe aflita, bem como para a humanidade. É aí que a motivação mórbida dele, de forma excêntrica, distancia-se do egoísmo dos personagens da tríade citada no início. Se por um lado ele quer matar para recuperar a vitalidade de existir nesse mundo, por outro o assassinato é também estimulado por uma sinistra ponta de altruísmo. Ele acredita em uma espécie de heroísmo às avessas que vai libertar a pobre mulher do sofrimento ― em um filme com tal profundidade filosófica, essa concepção é perfeitamente razoável. A caminhada moral de “Homem Irracional”, dominada por referências a pensadores como Jean-Paul Sartre, Immanuel Kant e Martin Heidegger, evidencia que “Crime e Castigo”, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, é quase uma obsessão para Woody Allen. Na versão do próprio Abe Lucas da “Banalidade do Mal” de Hannah Arendt, a estudante Jill tem papel determinante. É a partir dela, a estudante de filosofia com grandes olhos inquisidores, que noções de julgamento (certo e errado, bom e mau) tomam forma em um filme onde o medo despertado pela lei dos justos (os pecadores sempre serão punidos, nem que seja por Deus) está morto e sepultado.

 

Avaliação Emmanuela Oliveira

Nota 5