Ilegal

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13 de outubro de 2014

“Se eu fosse médica, não saberia o que fazer. Mas eu sou mãe”. A declaração registrada quando “Ilegal” já corre pela metade dá o tom da luta e da obstinação de Katiele, Margareth e Camila, mães cujos filhos sofrem de graves distúrbios neurológicos que provocam severas e constantes crises de epilepsia. Elas encontraram no canabidiol, um componente sem princípio ativo extraído da maconha, uma alternativa terapêutica eficaz para apaziguar o sofrimento de seus filhos, mas esbarram em uma série de entraves que tornam praticamente impossível a importação e utilização do medicamento fabricado nos Estados Unidos da América.

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O documentário dirigido Raphael Ericksen e Tarso Araújo retrata a luta dessas famílias ao mesmo tempo em que traça um interessante panorama do uso medicinal da maconha, enriquecido por outros exemplos, que chegam mesmo ao uso “tradicional” da erva como paliativo para dores crônicas e até câncer.

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Focado basicamente no dia-a-dia de familiares e pacientes, o longa revela a verdadeira via crucis enfrentada por quem pretende utilizar o método não convencional de tratamento. Integrando uma lista de substâncias proibidas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a importação desses remédios depende de uma autorização excepcional da própria Agência. Para tanto, o paciente precisa apresentar um receituário prescrevendo a droga, mas como os Conselhos Regionais de Medicina proibiram os profissionais da saúde de receitá-la, os médicos relutam em assiná-los, temendo as sanções disciplinares a que estão sujeitos caso o façam.

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Dá-se início, então, a um entrave burocrático que gera um círculo vicioso cruel, retratado com argúcia pelos diretores. Apresentando um país completamente atrasado na discussão do tema, o documentário dá voz às angústias, expectativas e problemas legais enfrentados por quem, desiludido com a ineficácia de remédios consumidos em doses diárias cavalares, decide enfrentar os próprios preconceitos e recorrer à maconha, estigmatizada e vista como “coisa de vagabundo”, como último recurso em busca de conforto e qualidade de vida.

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“Ilegal” pode ser acusado de certo maniqueísmo, já que praticamente não dá voz ao outro lado da discussão e, ao relatar o sofrimento de crianças adoráveis e de seus familiares, assim como o de outros pacientes, torna impossível para o público não simpatizar com sua causa. Contudo, fica evidente desde o início que sua proposta não é a promoção de uma contraposição de argumentos, mas funcionar declaradamente como um libelo em defesa da legalização do uso medicinal da cannabis sativa, algo que o filme faz muito bem.

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Alternando momentos de desespero, alegria, engajamento, esperança e frustração, o filme denuncia o labirinto jurídico-burocrata enfrentado por pessoas que, confrontadas com a inoperância do Poder Público, assumem os riscos de um processo criminal e respondem: “que me processem”. “Ilegal” é uma obra para se assistir com lágrimas nos olhos e acaba se revelando, afinal, muito mais que um filme. É o registro cinematográfico da sociedade civil exercendo o seu direito de exigir mudanças e, de fato, conseguindo: no dia 9/10/2014, data da estreia do documentário, o Conselho Regional de Medicina do Estado do São Paulo autorizou a prescrição médica do canadibiol, medida que certamente beneficiará inúmeras pessoas e que evidencia os méritos do projeto de Raphael Ericksen e Tarso Araújo.

 

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Brasil, 2014, 90 minutos.

Direção: Raphael Ericksen e Tarso Araújo

Avaliação Celso Rodrigues Ferreira Junior

Nota 5